Castello Branco defende combustíveis com preços de importação

Apesar da Petrobrás superavitária na produção de petróleo e capaz de refinar para abastecer com menores custos

Em palestra na Comissão de Infraestrutura do Senado, Roberto Castello Branco, atual presidente da Petrobrás, ao tratar do parque de refino da Petrobrás afirma:

“A Petrobrás assinou acordo voluntário com o CADE para vender oito de suas treze refinarias que representam 50% da sua capacidade de refino” (Branco, 2019)

Diz ainda que:

“As principais petrolíferas do mundo têm desinvestido e reduzido sua capacidade de refino” (Branco, 2019)

Maiores petrolíferas apostam na integração vertical com agregação de valor ao petróleo cru, atual direção da Petrobrás acelera na contramão
Das 25 maiores petrolíferas do mundo, 19 são estatais. Tanto as estatais quanto as multinacionais privadas estão fortalecendo seu posicionamento no segmento de Refino, Transporte e Comercialização (downstream). Segundo a Shell, o seu fluxo de caixa é suportado pela integração na cadeia, o que traz resiliência ao portfólio. De acordo com o relatório Shell investors handbook (2018), a empresa tem 21 refinarias em operação, capacidade de 2,8 milhões de barris por dia (bpd) e está ampliando sua rede de distribuição, com 44 mil postos com bandeira Shell no mundo.

De acordo com a Exxon, o downstream se tornou cada vez mais importante para o desempenho financeiro da empresa, especialmente nos ciclos recentes de preços baixos do petróleo. A Exxon tem 22 refinarias, com capacidade de refino de 5 milhões bpd, e 21 mil postos com a bandeira Exxon no mundo. A Exxon está duplicando sua refinaria de Beaumont, no Texas, um projeto de US$ 2 Bilhões para processar o tight oil que é produzido nos Estados Unidos e fortalecer sua integração vertical.

A Total está investindo fortemente na distribuição de combustíveis, em projetos na Arábia Saudita e na Índia, recentemente comprou uma distribuidora de Minas Gerais.

Todas as regiões do mundo apresentam expansão do parque de refino, tendo em vista a estratégia de integração vertical na cadeia como forma de agregar valor ao petróleo, maximizando assim a renda petroleira e aumentando a resiliência do fluxo de caixa em ciclos de preços baixos do petróleo, conforme observado recentemente

As maiores petrolíferas de capital privado (majors) estão cada vez mais integradas, deixando de ser vendedoras de commodities para se tornarem empresas de derivados e petroquímicos de alto valor agregado.

A importância relativa das majors tem se reduzido, das 25 maiores petrolíferas, são 19 estatais. As multinacionais privadas são empresas decadentes, não recuperam suas reservas na medida em que são esgotadas e tem produção histórica declinante. As estatais têm 90% das reservas e 75% da produção mundiais. As estatais têm investido na integração, para agregação de valor ao petróleo cru no refino e na petroquímica. (Coutinho, Direção da Petrobrás acelera na contramão com privatizações, 2019)

“Liberdade” de preços dos combustíveis
Castello Branco defende a política de preços paritários aos de importação. Defende que os brasileiros paguem preços equivalentes aos dos combustíveis importados, apesar da Petrobrás e do Brasil serem superavitários na produção de petróleo e de haver capacidade de refiná-lo internamente para abastecer o país com menores custos.

Ao tentar defender o Preço de Paridade de Importação (PPI) Castello Branco afirma:

“Se usar os custos na formação dos preços, seremos obrigados a importar e perder dinheiro.” (Branco, 2019)

Gasolina
Em 2014 foram produzidos 181,6 milhões de barris de Gasolina A no Brasil, equivalente a 248,8 milhões de barris de Gasolina C (com 27% de etanol anidro). Em 2018, o mercado brasileiro de Gasolina C foi de 241,2 milhões de barris. Ou seja, existe capacidade instalada de se produzir no Brasil a demanda pela Gasolina C de 2018.

Diesel
Em 2014 foram produzidos 312,4 milhões de barris de Diesel no Brasil. Em 2018, o mercado brasileiro de Diesel de origem fóssil – descontada a fração de Biodiesel – foi de 316,6 milhões de barris. O 1º trem da RNEST entrou em operação em dezembro de 2014, o que aumenta a capacidade de refino e produção de diesel. A capacidade de produção nacional é compatível com a demanda, caso exista a necessidade de importação de diesel seria residual.

Os custos médios e ponderados de produção e importação da Petrobrás sempre foram menores que seus preços. É possível adotar política de preços competitivos, baseados nos custos e na paridade de exportação do combustível brasileiro e garantir alta lucratividade da Petrobrás. (AEPET, Proposta de nova política de preços do diesel para a Petrobrás, 2019)

O Brasil tem capacidade de produzir e refinar o seu petróleo no país. Mas a política de preços tem promovido a importação de combustíveis e a exportação de petróleo cru. Cerca de 50% do petróleo cru produzido no Brasil tem sido exportado, em grande medida por multinacionais estrangeiras. Enquanto isso, até 30% do mercado de combustíveis tem sido ocupado por importados, na maior parte dos Estados Unidos.

Trata-se de um ciclo do tipo colonial, extrativo e primário exportador do petróleo cru do Brasil. Nenhum país se desenvolveu exportando petróleo cru por multinacionais estrangeiras e importando combustíveis.