Por Eric Gil Dantas, economista do Ibeps
A Petrobras divulgou na madrugada de hoje o resultado do 4º trimestre de 2025 e, consequentemente, o consolidado de todo o ano. No último trimestre, a companhia registrou lucro líquido de R$ 15,563 bilhões, encerrando 2025 com um lucro total de R$ 110,129 bilhões — resultado alcançado mesmo diante da queda de 14,5% no preço do Brent ao longo do período.
O lucro líquido recorrente — que exclui ganhos ou perdas extraordinários e não recorrentes, oferecendo uma visão mais precisa do desempenho operacional da empresa — foi de R$ 100,955 bilhões, 2% inferior ao registrado em 2024. No 4º trimestre, o lucro recorrente alcançou R$ 25,653 bilhões, valor 45% superior ao do mesmo período de 2024.
Esse resultado, mesmo diante da queda do preço do Brent, é explicado pela expansão da produção da estatal. A produção passou de 2,698 Mboed (milhões de barris de óleo equivalente por dia) em 2024 para 2,99 Mboed em 2025, um crescimento de 11%. Esse aumento já era esperado e deve continuar nos próximos anos. A empresa projeta que, em 2026, a produção total de óleo e gás alcance 3,1 Mboed, chegando ao pico em 2029, com cerca de 3,4 Mboed.
Por outro lado, a produção de derivados caiu 2,9% no ano. Segundo a companhia, a redução ocorreu em função da parada geral da RNEST, entre janeiro e março, e da REVAP, entre outubro e novembro. Com isso, o FUT caiu de 93% em 2024 para 91% em 2025. Em 2026, o FUT deve voltar a subir – como já indicam os dados da ANP para janeiro – além do crescimento do volume total processado, resultado das expansões realizadas no parque de refino já existente.
Apesar disso, o refino também contribuiu para sustentar os resultados da Petrobras, já que a queda no preço dos derivados foi muito menor do que a do Brent. Enquanto o Brent recuou 14,5% no ano, o preço médio dos derivados no mercado interno caiu apenas 1,9%. Embora isso seja positivo para as finanças da companhia, também evidencia um problema na atual política de preços. Em 2025, a Petrobras manteve o preço da gasolina muito próximo ao PPI, enquanto no diesel os preços ficaram quase sempre abaixo desse parâmetro. Em janeiro de 2026, por exemplo, a estatal praticou preços acima do PPI durante todo o mês. Diante do atual cenário de guerra no Irã, é preciso exigir que a companhia não eleve os preços, já que por um período considerável praticou valores acima do PPI.
Com tudo isso, o resultado operacional manteve-se resiliente. O fluxo de caixa operacional – isto é, o dinheiro gerado pelas atividades principais da empresa, descontados os custos operacionais – permaneceu relativamente estável, com queda de apenas 1,8%.
O câmbio também contribuiu para o resultado, já que o dólar se valorizou 3,7% no ano, o que eleva, em reais, o valor do Brent.
Os investimentos continuaram a crescer, o que é bastante positivo – sobretudo por ocorrer em um ano de queda do Brent, demonstrando firmeza no plano de investimentos da companhia. Em 2025 foram investidos US$ 20,319 bilhões, valor 22,2% superior aos US$ 16,6 bilhões de 2024, que, por sua vez, já haviam sido significativamente maiores do que os montantes investidos em 2023 (US$ 12,67 bilhões) e em 2022 (US$ 9,8 bilhões). Parte desse aumento foi financiada pelo crescimento da dívida líquida, que passou de US$ 52,2 bilhões em 2024 para US$ 60,6 bilhões ao final de 2025.
A política de dividendos segue intacta, prevendo a distribuição de 45% do Fluxo de Caixa Livre. Isso resultou em um total de R$ 41,2 bilhões em dividendos no ano. Trata-se de uma decisão questionável: pagar dividendos tão elevados ao mesmo tempo em que a empresa amplia seu endividamento. Seria mais adequado rever a política de dividendos para que a própria geração de caixa financiasse esses novos investimentos.
2026 tende a ser um ano mais “fácil” para a Petrobras – ainda que por motivos ruins. Os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, e a consequente expansão do conflito para a Península Arábica, com ataques à Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, já fizeram o Brent atingir patamares muito elevados. Enquanto escrevo este texto, a cotação já chega a US$ 89, o que representa uma alta rápida de quase 30% em relação à média do ano passado. Isso tende a impulsionar o lucro da companhia. Ao mesmo tempo, desmonta o argumento utilizado pela gestão durante o último ACT, quando pressionou os trabalhadores alegando um cenário de barril abaixo de US$ 60.
