A importância da soberania energética em tempos de guerra

Eric Gil Dantas, economista do Ibeps

Acordamos nesta segunda-feira (9) com a notícia de que o preço do Brent ultrapassou a marca de US$ 100 pela primeira vez desde meados de 2022. Durante a madrugada, o barril chegou a ser negociado a US$ 119. Em meio à escalada da guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o episódio volta a demonstrar, de forma didática, como conflitos internacionais impactam diretamente o mercado de energia. Mais uma vez fica evidente a importância de o Brasil aproveitar seus recursos naturais e sua capacidade industrial para garantir sua soberania energética, e como a Petrobras integrada e forte é extremamente estratégica para o país.

Se o plano de Michel Temer e Jair Bolsonaro tivesse sido concretizado e a Petrobras tivesse sido privatizada, os preços dos combustíveis já estariam nas alturas. Basta ver o que ocorreu na Bahia: poucos dias após o início da guerra, a Refinaria de Mataripe – privatizada em 2021 – elevou o preço da gasolina em 30 centavos e o do diesel em 90 centavos na semana passada. E para esta semana deve haver novos aumentos por lá.

A guerra e a escalada de preços

O Irã é o 5º maior produtor e possui a 3ª maior reserva de petróleo do mundo. Mas não é só por isso que a guerra está fazendo os preços subirem.

Como retaliação aos ataques em seu território, o Irã fechou o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico/Arábico, por onde passa 20% de todo o petróleo consumido no mundo, vindo da Arábia Saudita, Iraque, Catar, Kuwait, Emirados Árabes e o próprio Irã.

Por conta disto, na semana passada o custo do seguro para um navio que trafega pelo Estreito de Ormuz aumentou 12 vezes, mesmo depois de Donald Trump ter prometido garantir o comércio por lá. Os prêmios de risco das seguradoras subiram para até 3% do custo de um navio na quarta-feira passada, ante cerca de 0,25% antes da guerra – o que praticamente inviabiliza o comércio.

Um segundo fator que levou a subida dos preços foram os ataques aos países aliados dos EUA na região e às estruturas de petróleo, refino e tancagem. Praticamente todos os aliados americanos do Oriente Médio já foram atacados: Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Omã, Iraque, Jordânia e até o Azerbaijão (já no Cáucaso). Além disso, estruturas da indústria petroleira também foram: Refinaria Ras Tanura (da Saudi Aramco) e a Refinaria BAPCO (Bahrain); Tanques de combustível no Aeroporto Internacional do Kuwait e de combustível no Porto de Duqm (Omã); e o navio petroleiro Skylight, perto da costa do Omã.

Gráfico 1 – Preço diário do barril tipo Brent (US$) – 01/01/2022 a 09/03/2026

Fonte: EIA

Construção da autossuficiência em combustíveis foi sabotada

Ainda nos dois primeiros governos Lula, a Petrobras passou a perseguir o objetivo de alcançar a autossuficiência em combustíveis, em um contexto em que o país caminhava para a autossuficiência em petróleo graças ao pré-sal. Em 2008, a companhia anunciou dois grandes projetos de refinarias: a Refinaria Premium I, no Maranhão, no município de Bacabeira, e a Refinaria Premium II, no Ceará, no Complexo Industrial do Pecém. Junto com a RNEST – que apenas agora está construindo o segundo trem – o país poderia inclusive se tornar exportador de diesel de baixo teor de enxofre.

Mas a Operação Lava Jato, somada à queda vertiginosa do preço do barril de petróleo e por fim o impeachment da presidente Dilma, acabou enterrando o plano de autossuficiência. No fim, apenas o primeiro trem da RNEST foi construído. Hoje ele responde por cerca de 5% da capacidade de refino do país e é a refinaria que, proporcionalmente, mais converte petróleo em diesel.

É verdade que, de 2023 para cá, a Petrobras retomou uma série de investimentos no refino, com foco principalmente na ampliação da produção de diesel, mesmo sem a construção de novas refinarias. Entre eles estão: (i) a conclusão do revamp do trem 1 da RNEST e a contratação para a construção do trem 2; (ii) a instalação de um novo HDT na REPLAN, que ampliou a capacidade de produção de diesel S-10 em até 63 mil barris por dia e de QAV em até 21 mil barris por dia; (iii) o revamp do HDT da REVAP, que elevou em 80% a capacidade de produção de diesel S-10 da refinaria; e (iv) a assinatura de contratos para a integração entre a REDUC e o Complexo de Energias Boaventura, o que ampliará a produção de diesel S-10 em 76 mil barris por dia, de QAV em 20 mil barris por dia, além de viabilizar a produção de 12 mil barris por dia de lubrificantes do Grupo II.

Mas o desmonte do projeto de autossuficiência tem um preço. Mesmo com os novos investimentos da Petrobras, é pouco provável que o Brasil alcance a autossuficiência em diesel nos próximos anos. Nos casos da gasolina e do gás de cozinha, o problema é menor. A expectativa é de contração da demanda por gasolina – em função da eletrificação da frota e do aumento do consumo de etanol –, enquanto, no caso do GLP, o início da operação do Rota 3 deverá permitir que, em poucos anos, o país também alcance a autossuficiência, por meio do processamento de gás natural em UPGNs para a produção de gás de cozinha.

Hoje dependemos parcialmente do mercado internacional. Em 2025, o Brasil importou 7,5% da gasolina consumida no país, 24,6% do diesel e 25,1% do GLP.

Tabela 1 – Proporção de importação sobre o total de combustíveis vendidos no Brasil em 2025

Combustível

Importação

Venda total

Proporção

Gasolina

3.497

46.651

7,5%

 

Diesel

17.093

69.473

24,6%

 

GLP

400,3

1.595,30

25,1%

 

 Fonte: ANP

É hora de testar a política de preços da Petrobras

Quem vive em uma região com refinaria privatizada já começou a sentir no bolso os efeitos da guerra. Na Bahia, onde a Refinaria de Mataripe é responsável por 76% da oferta de gasolina – enquanto a Braskem responde por 22% e a Petrobras por nada – e por 99,6% do diesel, o impacto já foi grande. A Acelen reajustou a gasolina em 20% (51 centavos) e o diesel em 27% (90 centavos). Já a Ream chegou a elevar o preço do diesel (S500) em 35% desde o início da guerra (R$ 1,32). E novos reajustes devem vir por aí, com a nova escalada dos preços do Brent.

Tabela 2 – Reajuste de preços após o início da guerra nas refinarias privatizadas

Gasolina

Preço antes da guerra (27/02)

Preço atual

Aumento

Mais caro do que a Petrobras

Mataripe

2,54

3,05

20%

13%

Ream

2,90

3,47

20%

28%

Clara Camarão

2,59

2,89

12%

7%

Diesel

Preço antes da guerra (27/02)

Preço atual

Variação

Mais caro do que a Petrobras

Mataripe

3,28

4,18

27%

28%

Ream

3,78

5,10

35%

56%

Clara Camarão

3,33

4,08

23%

25%

 Fonte: Acelen; REAM; Brava

A Petrobras substituiu o PPI em maio de 2023, adotando em seu lugar uma política de preços cujos critérios não são totalmente claros. Ainda assim, em média, essa política tem mantido os preços abaixo do nível que seria praticado pelo PPI e com menor volatilidade. No entanto, no ano passado a Petrobras passou um período considerável com o preço da gasolina acima do PPI – enquanto, no caso do diesel, os valores permaneceram quase sempre bem abaixo dessa referência. Isso significa que os meses em que a gasolina ficou acima do PPI ao longo de 2025 justificariam que a estatal mantivesse os preços congelados neste momento de crise global. Não seria nenhuma concessão, mas apenas a devolução da “gordura” formada em 2025. Portanto, nem adianta o “mercado” chorar.

Gráfico 2 – Preço da gasolina e diesel na Refinaria de Paulínia (Petrobras) x PPI (Paulínia)

 

Fonte: Abicom

Além disso, o governo Lula sustenta que a Petrobras deve cumprir também objetivos sociais, o que igualmente justificaria a manutenção dos preços atuais – que, vale ressaltar, não estão baixos.

Mas, como sabemos, a Petrobras é o centro de uma disputa política permanente. Trata-se da maior empresa do país e da maior pagadora de dividendos da América Latina, o que faz com que a pressão por repasses cada vez maiores ao “mercado” seja constante. Em um momento de guerra e forte instabilidade no mercado internacional de petróleo essa disputa se torna ainda mais evidente. Por isso, os petroleiros e a sociedade brasileira devem pressionar para que a estatal cumpra seu papel estratégico, servindo aos interesses nacionais e contribuindo para a estabilidade da economia e para a preservação das condições materiais de vida das famílias brasileiras.