Por Eric Gil Dantas, economista do Ibeps
No início de março, poucos dias após a eclosão da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, entidades empresariais que historicamente se valem de momentos de instabilidade internacional voltaram a acionar seu discurso recorrente: se a Petrobras não elevasse imediatamente seus preços, o Brasil enfrentaria desabastecimento de combustíveis. A Abicom, a Fecombustíveis e diversos analistas alinhados ao mercado adotaram um tom alarmista, buscando disseminar pânico na população. O objetivo era velho conhecido: mobilizar o medo do desabastecimento para pressionar a estatal a reajustar os preços, alinhando-os aos praticados por refinarias privatizadas e importadores.
Apesar da ampla repercussão na mídia, o argumento carecia de base concreta. Casos isolados – como o de um posto no interior do Rio Grande do Sul – eram alçados à condição de evidência, sustentando reportagens que previam um desabastecimento iminente no país.
Como de costume, a produção de dados oficiais não acompanha a velocidade com que se propagam narrativas alarmistas e enganosas. Nesta terça-feira, 5, a ANP divulgou a Síntese de Comercialização de Combustíveis referente a março, justamente o período inicial das agressões ao Irã.
Segundo o documento, as vendas de Diesel B no país aumentaram 10,5% em março na comparação com o mesmo período do ano anterior e 18% em relação a fevereiro. Ao mesmo tempo, as importações caíram 20% frente ao ano anterior e 25% na comparação mensal. Apenas 19% do diesel comercializado no país teve origem no exterior (46% desse volume vindo da Rússia), percentual bem inferior ao padrão histórico, que costuma variar entre 25% e 33%. Esse movimento foi possível porque a produção interna cresceu para atender à maior demanda: as refinarias nacionais ampliaram em 13% a produção de diesel, com destaque para a Petrobras, que elevou sua produção em 20%, enquanto as refinarias privatizadas reduziram em 8%.
De fato, ao longo de março, a Petrobras praticou preços significativamente inferiores aos internacionais. Em 31 de março, o diesel vendido pela estatal estava 73% abaixo do Preço de Paridade de Importação (PPI) e 45% abaixo do praticado pela Refinaria de Mataripe, privatizada por Bolsonaro em 2021.
Essa política contribui para maior estabilidade econômica. Segundo dados da Global Petrol Prices, os preços da gasolina e do diesel subiram mais, na maioria dos países, do que no Brasil. No ranking de 128 países, o Brasil ocupou a 90ª posição no caso da gasolina e a 71ª no diesel.
Tudo isso é resultado da atuação da Petrobras. Ainda assim, tenta-se inverter a lógica: transformar a vantagem de contar com uma estatal forte no setor de petróleo e gás, dotada de um amplo parque de refino, em suposta desvantagem. A narrativa busca convencer a população de que, sem aumentos de preços, o país enfrentaria falta de combustíveis nos postos – como se estivesse em melhor situação caso a Petrobras adotasse a mesma política das refinarias privatizadas, com preços elevados.
Os dados, no entanto, são claros. É preciso confrontar a desinformação financiada por aqueles que lucram com a alta dos preços e com o empobrecimento da população.
