Por Cacau Pereira
Dados de 2025 nos colocam diante de uma realidade brutal no mundo do trabalho. De um lado, o país bateu recorde de acidentes laborais: foram 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes registradas em apenas um ano, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). De outro, o país também atingiu o maior número de afastamentos por transtornos mentais da última década: mais de 546 mil licenças concedidas pelo INSS por ansiedade, depressão, burnout e outros sofrimentos psíquicos relacionados ao trabalho. São mais de 92 acidentes por hora, que resultam em mais de 8 mortes ao dia.
Os números não representam fenômenos isolados. Eles expressam diferentes faces de uma mesma crise estrutural: a degradação das condições de trabalho, o avanço da precarização, a intensificação das jornadas, a pressão por produtividade e o aprofundamento de formas de gestão que adoecem e matam.
O discurso empresarial frequentemente tenta tratar acidentes e saúde mental como problemas individuais, resultado de “falhas humanas”, “fragilidade emocional” ou “falta de atenção”. Entretanto, os dados revelam exatamente o contrário: existe uma relação direta entre organização do trabalho, exploração intensificada e o crescimento simultâneo dos acidentes físicos e do adoecimento psíquico.
O país do trabalho adoecido
Entre 2016 e 2025, o Brasil acumulou 6,4 milhões de acidentes de trabalho e 27.486 mortes. Mais de 106 milhões de dias de trabalho foram perdidos em razão de acidentes e doenças ocupacionais. Trata-se de uma verdadeira tragédia social permanente.
Em 2025, o crescimento dos acidentes foi explosivo, com aumento de 65,8% em relação a 2020, crescimento de 60,8% dos óbitos, sendo os setores como saúde, transporte e construção civil alguns dos mais atingidos.
Os técnicos de enfermagem lideram a notificação de acidentes. Já os motoristas de caminhão concentram as mortes: foram 4.249 óbitos em dez anos — mais de uma morte por dia.
Esses dados revelam algo fundamental: os setores mais atingidos são justamente aqueles marcados por jornadas extensas, metas rígidas, ritmo de trabalho intenso, falta de pessoal, terceirização, pressão permanente, baixa autonomia e insegurança laboral. Não por acaso, são os mesmos setores onde cresce o sofrimento mental.
O sofrimento psíquico virou questão central do trabalho
Segundo os dados oficiais, a cada minuto, um trabalhador ou trabalhadora é afastado do trabalho por algum tipo de adoecimento mental. Ansiedade e depressão já aparecem entre as principais causas de licenças no país, atrás apenas dos problemas de coluna.
Os afastamentos por ansiedade chegaram a 166.489 casos. A depressão respondeu por 126.608 licenças. O burnout, símbolo do esgotamento extremo provocado pela organização do trabalho, praticamente triplicou desde 2023. O dado mais importante, porém, não é apenas o crescimento numérico. O essencial é compreender o que esses números revelam sobre o modelo atual de trabalho.
Especialistas ouvidos em diversos levantamentos apontam elementos comuns, como os vínculos precários, o medo do desemprego, a instabilidade constante, a pressão por resultados, as longas jornadas de trabalho, cobranças permanentes, o assédio moral, metas inalcançáveis, a hiperconectividade, a redução de equipes e o aumento da produtividade sem ampliação das condições de trabalho, na explicação dessa triste realidade.
O sofrimento mental não surge “fora” do trabalho. Ele é produzido dentro dele. A lógica empresarial contemporânea exige disponibilidade total, rapidez permanente e adaptação contínua. O trabalhador deve produzir mais, em menos tempo, sob maior pressão e com menor proteção. O resultado é o esgotamento coletivo.
Acidente e adoecimento mental: duas faces da mesma exploração
Existe uma relação direta entre desgaste mental e aumento dos acidentes de trabalho.
Um trabalhador submetido a exaustão emocional, privação de descanso, ansiedade constante e medo permanente perde capacidade de concentração, atenção e recuperação física. O sofrimento psíquico aumenta drasticamente os riscos de acidentes. Da mesma forma, ambientes inseguros e violentos emocionalmente ampliam o adoecimento mental.
A separação entre “acidente físico” e “doença mental” interessa apenas às empresas, porque fragmenta a discussão e esconde a origem comum do problema: a forma como o trabalho é organizado.
A lógica das metas abusivas é um exemplo claro disso. No transporte rodoviário, a pressão por entrega e produtividade leva motoristas a dirigir exaustos, dormir pouco, utilizar estimulantes e enfrentar jornadas desumanas.
Na saúde, a falta de equipes e o excesso de demanda produzem sobrecarga, exaustão, erros e acidentes, além do sofrimento psíquico contínuo. No comércio, nos bancos, nos call centers e nas plataformas digitais, o controle permanente, a cobrança incessante e a vigilância algorítmica criam ambientes de adoecimento permanente. A precarização não produz apenas baixos salários. Ela produz corpos lesionados e mentes esgotadas.
Mulheres no centro da sobrecarga de trabalho
Os dados revelam que mais de 60% dos afastamentos por transtornos mentais atingem mulheres. Isso não é casual. As mulheres ocupam fortemente setores altamente precarizados e emocionalmente desgastantes, como saúde, educação, teleatendimento e serviços. Além disso, acumulam dupla e tripla jornada, sendo responsáveis pelo trabalho formal, pelo trabalho doméstico, pelos cuidados de natureza familiar e emocional.
A desigualdade salarial, a violência de gênero e a responsabilização histórica pelo cuidado ampliam ainda mais a pressão sobre as trabalhadoras. O adoecimento mental feminino revela como a exploração do trabalho se articula com desigualdades estruturais da sociedade brasileira.
O custo humano e social da crise
O impacto dessa crise ultrapassa os locais de trabalho. O SUS registrou mais de 671 mil atendimentos ambulatoriais ligados à ansiedade e mais de 30 mil internações por depressão. Há um crescimento contínuo da demanda nos Centros de Atenção Psicossociais (CAPS).
O INSS pode ter desembolsado cerca de R$ 3,5 bilhões apenas com afastamentos por transtornos mentais. Mas o maior custo não aparece nas estatísticas. Ele está dentro dos lares. A crise da saúde mental do trabalho é uma crise social.
Reconhecer e enfrentar os riscos psicossociais: a importância da NR-1
Durante décadas, as empresas resistiram a reconhecer que o trabalho adoece mentalmente. O debate sobre saúde do trabalhador ficou restrito aos riscos físicos, às máquinas, ao ruído, ao calor e aos agentes químicos.
Mas o capitalismo contemporâneo sofisticou os mecanismos de exploração. Hoje, o controle emocional, psicológico e comportamental tornou-se parte central da gestão empresarial. Metas abusivas, assédio moral organizacional, insegurança permanente e vigilância digital passaram a funcionar como ferramentas de produtividade.
Por isso, a atualização da NR-1 representa um marco histórico. A inclusão dos riscos psicossociais nas obrigações de Segurança e Saúde do Trabalho significa reconhecer oficialmente que ansiedade, depressão, burnout, sofrimento psíquico, assédio e sobrecarga emocional não são problemas individuais, mas consequências da organização do trabalho.
A atualização da NR-1 amplia a responsabilidade das empresas e fortalece a fiscalização das condições reais de trabalho. Ela permite que fatores como metas excessivas, jornadas exaustivas, ausência de suporte, pressão abusiva, conflitos organizacionais, assédio moral, falta de autonomia e precarização das relações de trabalho passem a ser tratados como riscos ocupacionais.
Isso altera profundamente o debate. Até então, muitas empresas tratavam o adoecimento mental apenas como questão médica individual. Agora, torna-se necessário discutir a própria estrutura de gestão do trabalho.
A resistência empresarial à implementação da NR-1 demonstra exatamente o tamanho do conflito em disputa. Reconhecer os riscos psicossociais significa admitir que o modelo atual de exploração produz adoecimento em massa.
Saúde mental é questão de classe
O debate sobre saúde mental no trabalho não pode ser reduzido a campanhas motivacionais, estímulo individual, palestras superficiais ou programas empresariais de “bem-estar”. Não existe saúde mental possível em ambientes marcados pelo medo, assédio, metas abusivas, insegurança, exaustão, baixos salários e jornadas excessivas.
A crise atual revela os limites de um modelo econômico que transforma trabalhadores em peças descartáveis. Por isso, a luta pela saúde mental precisa ser entendida como parte da luta por redução da jornada, pela valorização salarial, o combate à terceirização e outras medidas.
Para tanto, é necessário intensificar a atuação sindical, fortalecer a fiscalização, ampliar os direitos trabalhistas e a organização sindical, estabelecendo o direito à organização dos locais de trabalho.
A NR-1 representa um avanço importante, mas ela só terá efeito real se houver pressão social, fiscalização efetiva e organização coletiva dos trabalhadores. Os números de 2025 deixam uma verdade evidente: o Brasil vive uma emergência no mundo do trabalho. E enfrentar essa emergência exige reconhecer que acidentes, sofrimento mental e precarização fazem parte da mesma engrenagem de exploração.
Cacau Pereira é Advogado, Especialista em Direito Público e Previdência Complementar, Pesquisador do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps).
A Síndrome de Burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, é um distúrbio emocional crônico caracterizado por exaustão extrema, estresse e esgotamento físico/mental, diretamente ligado ao ambiente de trabalho. Reconhecida pela OMS como fenômeno ocupacional, manifesta-se por exaustão, cinismo/distanciamento e baixa realização profissional, não melhorando com descanso comum.
A NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) é a norma base de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) no Brasil, estabelecendo diretrizes gerais e o gerenciamento de riscos ocupacionais. Ela obriga empresas a prevenir acidentes e doenças, incluindo, a partir de maio de 2026, a gestão obrigatória de riscos psicossociais e saúde mental.
