Por Eric Gil Dantas, economista do Ibeps
A Petrobrás publicou na noite de ontem, 6, o resultado do 2º trimestre de 2026, com lucro líquido de R$ 52,4 bilhões entre abril e junho, alta de 60,6% em relação aos R$ 32,7 bilhões do trimestre anterior e de 96,8% na comparação com o mesmo período do ano passado. Já o lucro líquido sem eventos exclusivos – indicador mais fiel à realidade operacional da companhia, pois retira efeitos contábeis como variação cambial e impairment – somou R$ 55,8 bilhões, alta de 140,5% na comparação com o mesmo trimestre do ano passado. Segundo a própria empresa, este foi um dos maiores resultados financeiros trimestrais de toda a série histórica da Petrobrás.
Dois fatores explicam este salto: o aumento da produção e a forte alta do Brent, que fechou o trimestre em US$ 104,52 o barril, avanço de 29,7% frente aos US$ 80,61 do 1º trimestre e de 54,1% na comparação anual – reflexo direto da guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos, que pressionou os preços internacionais de petróleo ao longo do trimestre, como mostra o Gráfico 1.

Do lado operacional, a produção total de petróleo e gás cresceu 3,4% em relação ao trimestre anterior, puxada pelo avanço do ramp-up dos sistemas já em operação e pela entrada em produção, em maio, da plataforma P-79 (Búzios 8), com capacidade de 180 mil barris de óleo por dia – a oitava unidade da Petrobrás no campo de Búzios. O custo de extração (lifting cost) recuou 6,3% no trimestre, para US$ 6,33 por barril, beneficiado pelo aumento da participação do Pré-sal no mix de produção, que já responde por 83% do total.
No refino, a Petrobrás bateu recorde histórico de utilização das refinarias, com fator de utilização (FUT) de 101,2% – alta de 5,6 pontos percentuais –, elevando em 5,6% a produção de derivados e mantendo em 68% a fatia de produtos de maior valor agregado (diesel, QAV e gasolina) no mix de vendas. O aumento de produção foi fundamental para a economia brasileira, no momento em que a guerra dos EUA e Israel contra o Irã fez disparar os preços internacionais: processando mais óleo internamente. A Petrobrás reduziu a necessidade de importar derivados a preços exorbitantes, segurando parte do repasse da crise ao consumidor. Mas os limites impostos pela privatização das distribuidoras de combustíveis ficaram evidentes: mesmo com a estatal batendo recorde de produção, distribuidoras privadas e postos aproveitaram a guerra para ampliar margens, chegando a usar o discurso do desabastecimento para pressionar reajustes nas bombas. Parte do benefício da maior produção da Petrobrás, assim, não chegou ao consumidor, capturada numa ponta da cadeia hoje fora do controle da estatal.
Com produção maior e preços mais altos, a receita de vendas da companhia cresceu 37,1% em relação ao trimestre anterior, para R$ 169,5 bilhões – o maior valor trimestral de toda a série histórica da empresa. O EBITDA ajustado sem eventos exclusivos, por sua vez, somou R$ 100,6 bilhões, alta de 63,2% no trimestre. O Gráfico 2 mostra como estes números, assim como o lucro líquido, são excepcionalmente altos mesmo na comparação com o período da pandemia e do início da Guerra na Ucrânia.

O Fluxo de Caixa Operacional atingiu R$ 61,8 bilhões (+40,6%) e o Fluxo de Caixa Livre chegou a R$ 38,6 bilhões, alta de 92,3% em relação ao trimestre anterior. Como a companhia segue destinando 45% do Fluxo de Caixa Livre ao pagamento de dividendos, foram aprovados R$ 17,4 bilhões em proventos relativos ao trimestre – quase o dobro dos R$ 9,0 bilhões do trimestre anterior.
Os investimentos também avançaram, somando US$ 5,3 bilhões no trimestre (+3,8%) e US$ 10,4 bilhões no semestre, 22,5% acima do mesmo período do ano passado. A Exploração & Produção concentrou a maior parte dos recursos, com destaque para os projetos do pré-sal na Bacia de Santos e para a revitalização de Marlim. No Refino, os investimentos cresceram 33,3%, puxados pelo Polo Boaventura e pelas paradas programadas das refinarias. Já em Gás e Energias de Baixo Carbono, o investimento praticamente dobrou (+98,3%), reflexo da aquisição de 49,99% da Lightsource bp no Brasil – empresa do segmento de energias renováveis onshore.
Vale destacar ainda uma nova despesa entre os eventos exclusivos do trimestre: R$ 4,9 bilhões referentes ao Imposto de Exportação sobre petróleo bruto e óleo diesel, ante apenas R$ 639 milhões no trimestre anterior. Uma política importante do governo para compensar o aumento de gastos com subsídios aos combustíveis em meio à guerra.
Apesar da forte geração de caixa, a dívida líquida segue em patamar superior ao do ano passado: os US$ 60,4 bilhões atuais representam alta de 3,1% em relação ao 2º trimestre de 2025, mesmo com a companhia batendo recordes de lucro e de fluxo de caixa. A relação dívida líquida sobre EBITDA, ainda assim, recuou de 1,43 vez para 1,14 vez, puxada pelo crescimento do próprio EBITDA. Isto reforça um ponto que já vínhamos destacando: mesmo em um contexto de lucros recordes, destinar quase metade do fluxo de caixa livre a dividendos segue limitando a capacidade da empresa de reduzir seu endividamento e de ampliar ainda mais seus investimentos.
