Por Eric Gil Dantas, economista do Ibeps
No dia 17 de agosto, quando o presidente Lula foi ao Amapá celebrar a descoberta de óleo em águas ultraprofundas na Margem Equatorial pela Petrobrás, ele repetiu um gesto e uma frase que ficaram conhecidos na década de 2000. Com as mãos sujas da amostra do óleo recém-descoberto, Lula definiu aquilo como o “passaporte para o futuro deste país”.
A célebre frase da época do Pré-sal ainda ecoa na cabeça dos brasileiros. Muitos céticos acham que a promessa é vazia, que não chegamos a este “futuro” e que a história se repetirá com a Margem Equatorial. Mas será que o Pré-sal não transformou de verdade o Brasil?
Neste artigo iremos analisar como o Pré-sal mudou a configuração econômica da indústria petrolífera brasileira.
1. Do pós-sal ao pré-sal: o panorama da produção
Entre 1997 e 2025, a produção nacional de petróleo saiu de 838 mil barris/dia para 3.770 mil barris/dia — mais que quadruplicou. Até os anos 2000, esse crescimento vinha sobretudo da maturação dos campos do pós-sal em águas profundas da Bacia de Campos, onde a Petrobrás já era referência mundial em tecnologia offshore. O ponto de inflexão foi a descoberta do campo de Tupi (hoje Lula), em 2006, na Bacia de Santos — a primeira confirmação de que havia óleo comercial abaixo da camada de sal, em águas ultraprofundas.

O óleo que tem como origem o Pré-sal equivale a 82,3% de toda a produção nacional. Isto é, sem estes poços poderíamos ter menos de um quinto da produção atual de petróleo do país.

2. O Brasil ganha relevância na produção global de petróleo
Em 1991, o Brasil era o 20º maior produtor de petróleo do mundo, com menos de 1% (0,99%) da produção mundial. Ao longo dos anos 1990 e 2000, o país melhora de posição, mas de forma irregular, até chegar ao 14º lugar em 2009. A partir de 2010, a trajetória muda de caráter: o Brasil sobe de forma praticamente constante e passa a estacionar em patamares mais altos por vários anos seguidos, até chegar e se firmar na 9ª posição mundial de 2020 a 2025, com 3,9% da produção mundial.


3. A autossuficiência brasileira
Entre 1970 e o início dos anos 2000, o Brasil dependeu estruturalmente de petróleo importado: em 1970, 67,6% da demanda de petróleo e derivados vinha de fora. Essa dependência caiu ano a ano ao longo das décadas de 1990 e 2000, e 2006 foi o primeiro ano em que a produção de petróleo superou a demanda (superávit de 3,6% sobre a demanda) – coincidentemente no mesmo ano da descoberta de Tupi. Mas, a rigor, o primeiro ano de autossuficiência veio do Pós-sal. Depois de alguns anos de oscilação entre superávit e déficit (2012-2014 voltam a ser deficitários), a autossuficiência se consolida a partir de 2015. Em 2025, o superávit de produção sobre demanda chega a 74% da demanda.

O reflexo direto aparece no comércio exterior de petróleo bruto: em 2000, o Brasil importava 145.301 mil barris/ano e exportava apenas 6.819 mil barris/ano. Em 2025, a relação se inverteu por completo – importação de 89.883 mil barris contra exportação de 701.840 mil barris, quase 8 vezes mais do que se importa.

4.O alívio na balança comercial
Em 2000, o petróleo bruto era irrelevante na pauta de exportação do Brasil (0,3% do total) e o país tinha balança comercial global negativa. Em 2025, o petróleo bruto já responde por 12,8% de tudo que o Brasil exporta – e o saldo (exportação menos importação) só do petróleo bruto, US$ 37,9 bi, equivale a 56% de todo o superávit comercial brasileiro do ano (US$ 68,1 bi). Do lado das importações, o efeito é o oposto: o petróleo caiu de 5,6% das compras externas em 2000 para apenas 2,4% em 2025 – a importação residual tem explicações na logística e nas características do óleo, não é mais uma questão de escassez.

Ou seja, mais da metade do superávit comercial do Brasil em 2025 vem de um produto em que, 20 anos atrás, éramos deficitários.
5. O que mudou nas contas públicas?
Royalties e Participação Especial (PE) – os principais tributos ligados à produção de petróleo – somaram R$ 710,7 bi entre 2015 e 2025 (período para o qual conseguimos calcular com confiança esta distribuição), dos quais R$ 580,2 bi (81,6%) vieram de campos do Pré-sal. Ou seja, sem o Pré-sal União, estados e municípios teriam tido mais de meio trilhão a menos em suas contas nos últimos 11 anos.

Isto afetaria fortemente alguns estados e municípios, principalmente o RJ – maior produtor de petróleo do Brasil. No gráfico abaixo mostramos a distribuição das participações governamentais por UF, sem diferenciar o Pré-sal. Mas como podemos ver, 22,8% das receitas do estado do RJ tiveram esta origem no ano passado. Mesmo o ES tem quase 5% de dependência. Sem o Pré-sal a maior parte destas receitas sequer existiriam.

No nível municipal, a concentração é ainda mais extrema: municípios costeiros do RJ e ES chegam a depender de royalties e PE por mais da metade da própria receita líquida. Em Arraial do Cabo (RJ), o peso chega a 68,5%; em Maricá (RJ), a 58,6% de uma receita líquida de R$ 7,2 bi.

6. A transformação da Petrobrás
A Petrobras também se transformou com o Pré-sal. No primeiro semestre deste ano, 85% do petróleo extraído pela companhia no Brasil veio do Pré-sal. Em 2018 este número era de 49%.

Além disto, a estrutura de custos da Petrobrás também mudou. O lifting cost do Pré-sal é muito inferior ao do pós-sal e ultraprofundo, assim como de terra e águas rasas. O custo de extração do Pré-sal no 1º semestre de 2026 foi de US$ 4,56 por barril, 73% e 76% inferior, respectivamente. Com isto, o custo de extração geral da empresa caiu de US$ 10,90 em 2018 para US$ 6,54 por barril – uma queda de nominal de 40%. Se descontarmos a inflação do dólar (CPI-U), a queda é ainda maior, de 55%.

7.Síntese: o que seria o Brasil sem o Pré-sal
Com estes dados é possível esboçar, tema a tema, o que teria sido – ou deixado de ser – a história recente da indústria petrolífera brasileira sem o Pré-sal.
Na produção, o país teria hoje menos de um quinto do petróleo que produz: os 82,3% da produção nacional que vêm do Pré-sal simplesmente não existiriam, e o salto de 838 mil para 3.770 mil barris/dia entre 1997 e 2025 teria sido uma fração do que foi. No ranking mundial, o Brasil dificilmente teria sustentado a arrancada que o levou da 14ª posição, em 2009, à 9ª, de 2020 a 2025: essa alta contínua começa exatamente em 2010, o mesmo ano em que a produção comercial do Pré-sal teve início.
Na autossuficiência, o país ainda teria alcançado sua primeira folga entre produção e demanda em 2006, graças ao Pós-sal. Mas dificilmente teria consolidado a autossuficiência a partir de 2015 nem chegado a um superávit de 74% sobre a demanda em 2025, e o comércio exterior de petróleo bruto não teria se invertido a ponto de o país exportar hoje quase 8 vezes mais barris do que importa. Claro, aqui poderíamos exportar menos se tivéssemos toda a capacidade de refino necessária para a autossuficiência em derivados, principalmente no diesel.
Na balança comercial, o petróleo bruto não teria saído da irrelevância (0,3% das exportações em 2000) para responder por 12,8% de tudo que o Brasil exporta, nem gerado um saldo de US$ 37,9 bi em 2025 – mais da metade (56%) de todo o superávit comercial do país naquele ano.
Nas contas públicas, União, estados e municípios teriam arrecadado mais de meio trilhão de reais a menos em royalties e Participação Especial só entre 2015 e 2025: os R$ 580,2 bi (81,6% do total de R$ 710,7 bi) que vieram de campos do Pré-sal simplesmente não teriam sido gerados. O impacto se concentraria onde essa dependência de royalties e PE (sem diferenciar a origem) já é mais alta hoje: o Rio de Janeiro, que tira 22,8% de sua receita dessas fontes, o Espírito Santo, com quase 5%, e municípios como Arraial do Cabo (68,5% da receita líquida) e Maricá (58,6%).
E a própria Petrobrás seria outra empresa: sem o Pré-sal, ela ainda dependeria majoritariamente de áreas mais caras de produzir – hoje o Pré-sal responde por 85% de sua produção própria, ante 49% em 2018 – e não teria conseguido baixar seu custo de extração geral de US$ 10,90 para US$ 6,54 por barril, uma queda puxada por um Pré-sal cujo custo de extração, US$ 4,56 por barril, é de 73% a 76% inferior ao das demais áreas.
Em suma, o “passaporte para o futuro” citado por Lula não parece ter sido uma promessa vazia. Produção, posição global, autossuficiência, comércio exterior, arrecadação pública e a própria Petrobrás seriam hoje substancialmente menores e mais frágeis sem o Pré-sal.
