A Tribuna completa 120 anos: nada a comemorar

O jornal A Tribuna celebra nesta quarta-feira, 26 de março, 120 anos de história. Não há dúvidas de que estamos falando do maior e mais importante veículo de comunicação da Baixada Santista - papel que foi ameaçado apenas pelo jornal Cidade de Santos, que circulou nas ruas santistas entre 1967 e 1987. Ou seja, por 20 anos a hegemonia do grupo A Tribuna chegou a ser ameaçada.

Hoje, não é assim. Outros periódicos, como Diário do Litoral, Jornal da Orla e Boqueirão ainda ocupam um papel secundário diante do principal veículo de comunicação impresso da Baixada Santista. Evidentemente, esse cenário por si só já seria preocupante porque expressa o controle quase absoluto da informação sob as mãos da família Santini - proprietária do jornal que hoje engloba um forte grupo de comunicação que inclui os jornais A Tribuna e Expresso Popular, além da TV Tribuna.

Quanto mais veículos de comunicação a região tiver mais fontes de informação teremos, o que reduziria (mesmo que minimamente) o risco de monopólios. Poderíamos dizer, respeitando as devidas proporções, que o papel desempenhado pelas Organizações Globo nacionalmente é desempenhado regionalmente pelo Grupo A Tribuna.

Entretanto, não se reduz a esta análise nossa posição de não comemorar o aniversário do jornal. A menos de uma semana do golpe de 1964, que tirou do poder um presidente eleito democraticamente (João Goulart) e fechou o regime, perseguindo, prendendo, torturando e assassinando mais de dois mil inocentes, entre militantes e pessoas comuns, simplesmente "confundidas" pelos torturadores, devemos relembrar o triste papel que o jornal A Tribuna desempenhou naquele período.

Somando-se a todos os outros periódicos da grande imprensa, o jornal A Tribuna foi um grande defensor da ditadura militar em seu princípio. Definia o golpe como revolução e chamava todos aqueles que se opunham ao regime de subversivos e sabotadores. E o pior, adicionava ao termo revolução a palavra democrática, um insulto a todos aqueles que sentiram na pele, e muitas vezes com a vida, o punho de ferro e autoritário do regime militar.

Como exemplo, citamos uma reportagem de 18 de março de 1965 com o seguinte título: "Subversão e sabotagem na refinaria: inquérito vai a juízo". Abaixo, reproduzimos alguns trechos da entusiasta matéria em favor do golpe.

"No dia 1º de abril do ano passado, quando da eclosão do movimento revolucionário democrático que depôs o governo do então presidente João Goulart, na Refinaria de Petróleo Presidente Bernardes, em Cubatão - dando cumprimento às decisões tomadas pelo extinto Fórum Sindical de Debates - vários atos de sabotagem, atentatórios à segurança nacional, foram levados a efeito.

Não fosse a ação patriótica de alguns funcionários da importante autarquia e a pronta e eficiente e a pronta e eficiente ação da policia e das forças militares aqui sediadas, por certo a refinaria, de Cubatão e boa parte de Santos e de São Vicente teriam sofrido as graves conseqüências da destruição que planejaram os elementos mais fanáticos.

Felizmente, graças á presteza com que se conseguiu neutralizar a ação dos sabotadores criminosos, tudo foi salvo, não obstante alguns prejuízos verificados, de ordem material e técnica. Como era óbvio, terminada a revolução.relâmpago, foram instaurados IPMs; na 4.a Delegacia desta cidade (DOPS) o inquérito policial agora encerrado está a caminho do Fórum para Julgamento.

(...) Nasceram então na Refinaria Presidente Bernardes a subversão, a luta de classes, a baderna e o domínio comuno-sindicalista, pondo em risco permanente a economia e a segurança da Nação."

Não é preciso se estender muito para afirmar que, por meio deste texto, o jornal A Tribuna deixava bem evidente sua oposição aos petroleiros que foram responsáveis por paralisar as atividades da RPBC em 31 de março de 1964, em Cubatão, num gesto que nada tinha de subversivo. Era sim, o oposto: uma atitude corajosa em defesa da soberania do país e das liberdades democráticas.

Seria muito relevante que o jornal, em seu aniversário, realizasse uma ampla e profunda autocrítica sobre o seu apoio ao golpe, financiado diretamente pelos EUA e pelos grandes empresários nacionais. O apoio civil por trás da ação dos militares é um importante elemento para avaliarmos por que o jornal apoiou um golpe que por 21 anos causou dor, medo, trauma e sofrimento a centenas de famílias - muitas delas formadas por petroleiros. Mais ainda, seria importante que o jornal pedisse desculpas públicas aos petroleiros e a todos os lutadores que se enfrentaram com o regime.

A grande imprensa, longe de exercer a utópica neutralidade e imparcialidade diante dos fatos, tem um lado, tem interesses. E, obviamente, nunca esteve (ou raramente esteve) alinhado aos interesses dos mais pobres, dos marginalizados, dos trabalhadores.

Não por acaso, e o jornal A Tribuna faz parte disso, os jornais de grande circulação fazem coberturas tendenciosas e negativas sobre os movimentos grevistas, apontando apenas os "prejuízos" causados à população. Não por acaso, os jornais de grande circulação tratam os movimentos sociais e populares como caso de polícia, e não como o espelho da ausência de políticas públicas, quando faz a cobertura de ocupações em terrenos e/ou prédios abandonados.

Respeitamos todos os profissionais que atuam no jornal A Tribuna, pois os enxergamos como trabalhadores e, assim, como nossos companheiros de luta. Nos solidarizamos, inclusive, às constantes condições degradantes de trabalho que todos os profissionais de imprensa enfrentam nas redações. Demissões arbitrárias, assédio moral, perseguições, jornadas exaustivas, baixos salários, calote no pagamento de horas extras e muitas outras irregularidades fazem parte da rotina de muitos jornalistas, fotógrafos e diagramadores.

Entretanto, não é dos trabalhadores que estamos falando. O que se questiona aqui é a linha editorial deste jornal, definida pelos seus fundadores, pelos seus proprietários.

É com base nos fatos históricos relatados aqui, para nós incontestáveis, que discordamos do jornal quando ele afirma: " 120 anos de informação e compromisso com o leitor". E é por isso também que não iremos bater palmas e nem assoprar velinhas para o seu aniversário.

Clique aqui e leia na íntegra a reportagem do jornal A Tribuna a favor do golpe