As primeiras lições de uma greve histórica e vitoriosa

Balanço

Que se diga logo de cara: a greve dos petroleiros foi vitoriosa. Não apenas por sua duração (23 dias nas bases da FNP!), por sua adesão (com coordenadores e supervisores aderindo ao movimento), ou pela capacidade de afetar a produção. Foi vitoriosa, sobretudo, porque mesmo deflagrada em meio a uma conjuntura acentuada de crise econômica e política foi capaz de barrar os retrocessos em nosso ACT e pautar o debate de uma Petrobrás 100% Estatal para além dos muros da Companhia.

Relembremos: como parte do Plano de Negócios e Gestão, como parte da intenção de tornar a venda de ativos mais atrativa ao mercado, a direção da empresa tentou impor um amplo processo de desmonte dos benefícios econômicos e sociais da categoria. Aumento abaixo da inflação, congelamento dos valores de auxílios educacionais; redução no percentual das horas extras; ataques ao Benefício Farmácia (AMS); redução da jornada de trabalho com redução salarial; alteração das cláusulas da RMNR e RSR para dar fim às ações da categoria na Justiça. Enfim, um pacote de maldades de peso que a categoria conseguiu barrar na luta!

Além disso, embora a greve não tenha conseguido barrar a venda de ativos, foi muito vitoriosa na tarefa de apresentar à sociedade uma saída dos trabalhadores perante os escândalos de corrupção e o processo de desmantelamento da empresa e seu caráter estatal. Ou seja, sob uma perspectiva de classe, apresentamos qual deve ser a saída para a crise da Petrobrás.

Mais forças para as próximas lutas
Rompendo um longo período de desarticulação das lutas, com campanhas reivindicatórias mornas, a categoria sai da greve com o moral elevado, orgulhosa da batalha travada e consciente de que outras estão no horizonte. E o melhor: os petroleiros estão agora mais fortalecidos para enfrentar os ataques da empresa e do governo no próximo período.

Sem dúvidas, estamos muito mais preparados. E por vários motivos. Não é à toa quando afirmamos que essa é uma greve pra chamar de nossa, ou quando entusiasmados petroleiros afirmam que essa foi “uma greve de verdade”. Retomamos piquetes fortes nas portas das unidades, as assembleias voltaram a ficar lotadas e a base voltou a ter autonomia para organizar e construir a luta com o Sindicato. Isso sem falar no enorme papel positivo das novas tecnologias. Através do facebook e principalmente do WhatsApp, a categoria deu uma aula de comunicação.

O protagonismo da juventude
Um dos aspectos mais significativos da greve foi o protagonismo da juventude petroleira – seja aqueles com pouco tempo de casa, seja aqueles mais novos de idade, na maior parte dos casos com esses dois fatores se combinando. Esses companheiros e companheiras, que até então não tinham vivido nada parecido, sustentaram piquetes, atos e fizeram do Sindicato a sua casa. Uma escola de lutadores. E o melhor, tiveram o apoio e a companhia de um importante setor da velha guarda, que trouxe a experiência e a maturidade de outras lutas, como a greve de 1995.

FNP como alternativa de direção
Bem que ela tentou reeditar o velho teatro com a Companhia, mas não conseguiu. Apesar da FUP, deflagramos a greve a partir das cinco bases da FNP, onde a categoria já estava mobilizada com atrasos e cortes de rendição desde 24 de setembro. Essa iniciativa corajosa foi fundamental para a vitória desta campanha. Impactou nacionalmente a categoria, obrigando a direção governista à aderir a greve iniciada três dias antes em nossas bases. Um dos fatos mais marcantes foi certamente a rebelião de importantes bases da FUP, com destaque para Norte Fluminense e Espírito Santo, quando ela tentou encerrar o movimento. Nas redes sociais, viralizou as frases “fup pelega”, “fup não me representa”. As derrotas da FUP em assembleias em inúmeras bases, e mesmo o desgaste nas bases que saíram da greve, demonstraram pela primeira vez um repúdio generalizado ao sindicalismo chapa branca, de conchavo com a empresa e o governo, dos dirigentes fupistas.

A FNP, mesmo com a tarefa de avançar em diversos pontos, demonstrou ao longo desta greve ser uma alternativa de direção efetiva, que não foge à luta e atua de forma independente do governo e da empresa.

Poderíamos mais se não fosse a traição da FUP
Apesar do justo sentimento de vitória que cerca a categoria após a greve, todos nós sabemos que era possível arrancar mais vitórias. Poderíamos mais se não fosse a traição da FUP, que resolveu no momento mais maduro da mobilização indicar a aceitação da proposta da companhia.

Poderíamos, no mínimo, arrancar da direção da Petrobrás a garantia, por escrito, de nenhuma punição aos grevistas e o abono integral dos dias parados. Basta lembrar que a continuidade da luta nas bases da FNP e nos sindicatos onde o indicativo de aceitação foi rejeitado fez a empresa apresentar um recuo parcial: a discussão dos descontos somente em janeiro – antes, a empresa apresentava como “proposta” já descontar esses dias. Não consideramos este recuo uma vitória, no entanto sinaliza que a continuidade da luta seria sim capaz de dobrar a empresa. Fora isso, era legítima e possível a luta por aumento real. Levantamento efetuado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que, de 309 acordos salariais fechados pelos trabalhadores de todo o país no primeiro semestre do ano, 73,5% tiveram aumento real de salário e 12,3% foram reajustados pelo INPC, totalizando 85,8% categorias profissionais com aumentos iguais ou maiores que a inflação.

No entanto, não se restringe ao desfecho da greve os erros cometidos pela direção fupista. Basta lembrar que desde o início da campanha a FUP desprezou a luta pela manutenção de nossos direitos, afirmando que o importante neste momento era a luta pela Pauta Brasil, que tratava a venda de ativos como um ataque descolado da tentativa de retirada de direitos. Neste sentido, foi um grande acerto da FNP combinar a lutra contra a privatização com a campanha pelo ACT, uma vez que sempre foram lutas interligadas. Corretamente, avaliamos que a defesa dos nossos direitos era a defesa de uma Petrobrás 100% Estatal.

Não podemos nos esquecer do enorme crime que representou a enrolação da FUP em marcar a greve. Ao adiar a deflagração da greve, iniciada em suas bases somente após o start nas bases da FNP, os dirigentes fupistas invialibilizaram a necessária e estratégica unidade dos petroleiros com os bancários. A separação das campanhas diminuiu nosso poder de fogo.

Entretanto, o que prevalece é a rebeldia e coragem da categoria. Apesar da FUP, deflagramos a greve e construímos uma mobilização histórica e vitoriosa, com amplo sentimento de solidariedade e união entre todas as bases petroleiras. Além disso, elevamos nossa consciência de classe; hoje, o petroleiro sabe mais do que nunca que não é possível vencer sozinho. A unidade com as demais categorias, com os movimentos sociais, os estudantes, demonstra ser uma necessidade de todos aqueles que lutam contra os ataques dos governos e dos patrões.

Cabe agora à FNP, que demonstrou ser uma alternativa de direção capaz de mudar o movimento sindical petroleiro, dar todo apoio e estímulo às oposições dos sindicatos da FUP. É hora de retomar os 17 sindipetros pra luta! Nesta greve, a categoria demonstrou estar disposta a construir um novo futuro.

Práticas antissindicais serão denunciadas
A greve dos petroleiros encerrou com algumas vitórias e muitas pendências, dentre elas e principais a reparação das práticas antissindicais cometidas pelas gerências ao longo das mobilizações.

Foram 23 dias de luta, tensionada por todo tipo de práticas antissindicais. O assédio aos trabalhadores foi a arma mais usada pelas gerências, que não mediram esforços e nem mecanismos para intimidar os grevistas.

Citando só alguns atos, houve gerente ligando para a casa de petroleiros, convocando-os para que fossem trabalhar em horários em que não haveria piquetes nas entradas das unidades; supervisores, coturs e eventuais fotografando e filmando os grevistas presentes nos piquetes; repressão policial, acionada pelas gerências das unidades, com direito a desfile de armamento pesado e intimidação dos grevistas, culminando em nossa base com a prisão de dois dirigentes em um ato pacífico no Edisa Valongo, em Santos.

Tratar trabalhadores como inconvenientes é no mínimo um desrespeito à força de trabalho e às leis do país. Depois de verem seus pedidos de liberação da entrada da UTGCA para passagem de caminhões negados pela Justiça do Trabalho, que foi taxativamente favorável ao movimento de greve e a negociação entre empresa e Sindicato, a gerência da unidade, por meio de um de seus fornecedores, denunciou o fechamento de uma “via pública” por manifestantes, sendo que a entrada da unidade é restrita a pessoas não autorizadas. Tal fato serviu de argumento ao nosso corpo jurídico, que derrubou a tese de acesso restringido por manifestantes, o que permitiu a volta do piquete até o fim da greve. No Terminal da Alemoa e no Tebar houve a “importação” de pelegos de outras unidades do país o que feria a lei de greve. Além disso, teve téccnico de manutenção operando caldeira e engenheiro fazendo abastecimento de barcaças, que é função de técnico de operação.

Também cabe ressaltar o empenho das gerências em ameaçar verbalmente dirigentes sindicais. As ameaças sempre se dão verbalmente e quando o assediador é questionado por escrito, por e-mail, por exemplo, sobre sua decisão de retaliação ao trabalho sindical, o tom da conversa parte para a cordialidade, e o que era ameaça torna-se “orientação”.

Em nossa base, não restam dúvidas de que as práticas antissindicais foram um elemento a mais para a indignação e vontade de lutar da categoria.

Todas as práticas antissindicais e de assédio foram registradas pela diretoria do Sindipetro-LP, sendo que muitas foram denunciadas pelos trabalhadores durante os protestos e já endossam processos que serão movidos pelo Sindicato contra os assediadores (civil e juridicamente).

Neste sentido, reafirmamos que nenhuma punição será aceita pelo Sindicato. Certamente, a Companhia tentará desmoralizar os grevistas com todo tipo de retaliação – muitas delas veladas. Por isso, pedimos a todos os companheiros e companheiras que comuniquem ao Sindicato qualquer medida neste sentido para que todas as medidas cabíveis sejam tomadas. Juntos, somos mais fortes!

A greve no litoral paulista
Sem dúvida o Litoral Paulista foi uma das bases onde a greve foi mais forte e radicalizada, afetando a produção, ganhando adesão de “cargos de confiança” e gerando repercussão na grande imprensa. Aqui, a maior greve da categoria desde 1995 marcou a retomada do Sindicato pelos trabalhadores.

Importante ressaltar que a greve atingiu todas as unidades do Litoral Paulista. No total, a média de adesão foi de praticamente 100% nos turnos e de 80% no ADM. Mesmo no Edisa Valongo, em Santos, onde há historicamente baixa adesão da categoria às greves, a mobilização foi marcada por uma participação muito maior dos trabalhadores.

No Tebar, destaque para a produção que foi afetada em 20% e para a adesão, ao longo da greve, de supervisores e coordenadores. Foi um fato histórico. Na UTGCA, destaque para o bloqueio do carregamento de produtos como C5+ e GLP – iniciativa realizada na base do convencimento com os motoristas de caminhão. Essa medida gerou retaliação da companhia, que por duas vezes usou este fato como pretexto para suspender as reuniões com a FNP. Além disso, destaque para a forte união e solidariedade entre os trabalhadores, que se revezarem em turnos de 12 horas no piquete armado em frente à unidade, que ainda contou com churrascos quase diários, organizados pelos próprios trabalhadores.

Os operadores do Terminal da Alemoa foram o primeiros trabalhadores a entregar a unidade para o grupo de contingência. No Terminal Pilões, onde a base sofre uma pressão enorme da gerência por ser uma unidade pequena, o que se viu foi uma adesão cada vez maior ao longo dos dias.

Na RPBC, destaque para a produção afetada em mais de 50%. Foram paradas de forma antecipada para manuntenção, por não ter contingente, as seguintes unidades: UN, URA e URC. Já as unidades UCP1, UV e UVV, tiveram que ser paradas porque todos os operadores seguiram as orientações do Sindicato. A gerência da RPBC não quis assumir os impactos, mas sabemos que a greve forçou as paradas e reduziu a carga da refinaria para 12 mil m³/dia. Nas plataformas de Merluza e Mexilhão, destaque para a decisão dos grevistas de deixar as duas unidades nas mãos dos grupos de contingência. Com isso, a greve que antes era realizada com a não emissão de PTs, passou a ser feita com o desembarque de todos os grevistas. Esses trabalhadores foram fundamentais, a partir desta decisão, na criação e concretização dos Grupos de Apoio – formados por petroleiros da base que contribuíram com os piquetes no Terminal Alemoa, Edisa Valongo, RPBC e Pilões. Esses grupos de apoio foram instrumentos importantes para garantir que a greve fosse feita de fato na porta da empresa, como sempre defendeu a direção do Sindicato.

Outra marca da greve no Litoral Paulista foram os vídeos com a participação dos trabalhadores, sempre ao final das assembleias. Essa iniciativa foi fundamental para a defesa e concretização da unidade nacional da categoria. Os petroleiros do Litoral Paulista mais uma vez reafirmaram o seu protagonismo no movimento sindical petroleiros.

Parabéns!