28 de Abril
Não é sem perigo, poucas horas após a realização da Greve Geral na Baixada Santista, fazer qualquer avaliação mais detalhada sobre os desdobramentos e significados deste 28 de abril de 2017. Mas uma afirmação é possível fazer: os trabalhadores, estudantes e lutadores da região tiveram, por muitas horas, o controle das cidades em suas mãos. Ruas vazias como se fosse feriado; garagens e terminais de ônibus sem qualquer movimentação; unidades produtivas do polo industrial completamente desertas, sem a rotineira cena que acontece todos os dias: os operários e operárias descendo os degraus dos ônibus para mais um dia de trabalho. Dessa vez, a tarefa era outra: sair às ruas para lutar contra as reformas da previdência e trabalhista, contra a terceirização.
Houve, claramente, uma quebra da normalidade nesta sexta-feira histórica. Assim que os ponteiros do relógio apontaram meia-noite, os ônibus municipais de Santos e Cubatão, além dos ônibus intermunicipais da região, suspenderam a circulação.
Construída há mais de um mês pelos principais sindicatos da região, após diversas reuniões entre a Frente Sindical Classista, centrais sindicais e sindicatos, a greve geral na Baixada Santista acabou se concentrando nas interdições de vias importantes das principais cidades da região, como Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão. Isso porque a maioria das categorias organizadas, com a greve já aprovada em suas assembleias, sequer tentaram chegar ao trabalho. Foi o caso dos petroleiros, metalúrgicos, químicos, servidores de Santos e Cubatão, trabalhadores da construção civil e portuários. Quem saiu de casa foi para ajudar nos piquetes que se concentraram nas vias de acesso a Santos.
A rodovia Cônego Dômenico Rangone foi travada, na altura do polo industrial de Cubatão, por mais de duas horas. O piquete, iniciado às 5 horas, só foi desarticulado às 7 horas após uma forte repressão da Polícia Militar, que dispersou os manifestantes com uma chuva de bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. Na divisa entre Santos e São Vicente, na avenida da praia, o piquete montando por quase 200 pessoas se estendeu por quase três horas, entre 5 e 8 horas da manhã. Na Avenida Martins Fontes, na região do Saboó, também houve bloqueio logo pela manhã.
No Porto de Santos, próximo ao Museu Pelé, os estivadores também bloquearam o acesso às vias da região. Ali, foi um dos pontos onde a Polícia Militar usou e abusou da repressão, lançando bombas de gás lacrimogênio nos trabalhadores. Para garantir o protesto, os manifestantes despejaram na pista soja de vários caminhões. As operações dos terminais foram sensivelmente afetadas, com forte adesão à greve dos trabalhadores portuários.
Ressalta-se também a presença marcante dos estudantes secundaristas e universitários na greve geral, desde os bloqueios de estradas e avenidas logo pela manhã até a concentração na Praça Mauá, onde todos os grevistas se encontraram para dar continuidade à mobilização.
União e força da greve superam repressão
Além da repressão aos manifestantes nos bloqueios realizados na área portuária e na Rodovia Cônego Dômenico Rangoni, a Polícia Militar também proporcionou cenas de violência e terrorismo contra os trabalhadores ao longo do dia em vários outros locais. Na Praça Mauá, em Santos, onde foi iniciada a concentração dos manifestantes a partir das 10 horas, soldados da corporação literalmente perseguiram os estivadores presentes. Além de nove detidos, conforme divulgou a imprensa, vários trabalhadores ficaram feridos.
O presidente do Sindicato dos Operários Portuários de Santos e Região (Sintraport), Claudiomiro Machado 'Miro' Miro, um diretor e mais dois funcionários ligados ao Sintraport foram agredidos covardemente, sem qualquer chance de defesa ou resistência, pelos policiais em frente à sede da entidade sindical após os primeiros protestos da manhã. Câmeras de monitoramento flagraram parte da ação (assista aqui).
Entretanto, a força da greve geral na Baixada Santista, aliada à unidade demonstrada pelos trabalhadores e estudantes durante todo o dia, superaram as tentativas das forças repressivas do Estado de massacrar o direito legítimo de lutar. Se a intenção era impedir a demonstração de força desta greve, a capacidade de virar o jogo dos trabalhadores e resistir aos ataques do desgoverno Temer, o objetivo fracassou.
Iniciada justamente em protesto às detenções arbitrárias de estivadores, a passeata realizada nas principais avenidas do Centro de Santos, logo após a concentração na Praça Mauá, foi um grito de esperança e força daqueles que ousam lutar por um país mais justo. Nas escadarias do Fórum de Santos, os trabalhadores fecharam o dia com uma tarefa já estabelecida: a construção de um forte e unitário 1° de Maio na Baixada Santista, que acontecerá em Santos, na Praça das Bandeiras, a partir das 10 horas. O dia 28 foi apenas a primeira batalha de uma guerra que está longe de terminar. Nenhum passo atrás, é preciso permanecer com o exército nas ruas!
