As histórias de Wilson Gomes, o sindicalista apaixonado por lutas e literatura

"Nós por nós"

Wilson Gomes nunca se encaixou nos muitos estereótipos que existem sobre os dirigentes sindicais brasileiros. Primeiro, nunca foi de gritar - seja no microfone na porta da fábrica, seja nas reuniões polêmicas do movimento ou da diretoria colegiada do Sindipetro Litoral Paulista. Sempre preferiu a boa conversa, a diplomacia, a articulação detalhada de cada frase, cada argumento, entre uma tragada e outra de cigarro. Segundo, sempre fez questão de carregar debaixo do braço um livro. E não qualquer livro, desses sobre segurança do trabalho ou convenção coletiva. Não, era sempre uma obra literária, com pouca ou nenhuma relação com a militância. Na correria das lutas diárias em defesa dos petroleiros e da Petrobrás, sempre achava um tempinho para mergulhar na leitura.

Aposentando recentemente, em novembro de 2014, após mais de 20 anos de trabalho como técnico de segurança no Tebar (Terminal Almirante Barroso), em São Sebastião, Wilson agora tem tempo de sobra para saborear, folha por folha, página por página, os mais de três mil livros espalhados na biblioteca de sua casa. “Todos catalogados”, como faz questão de frisar.

Mas nem sempre foi assim, o tempo para os momentos de lazer foi por muitos anos exceção. Quando exerceu a condição de diretor do Sindicato, numa das ocasiões como coordenador-geral entre 2008 e 2009, chegou a ter o casamento ameaçado. "Quase eu e minha mulher nos separamos. Quando você está no sindicato não é dono do seu nariz, está o tempo todo à disposição da categoria. Não tem sábado, não tem domingo. Sindicato tem uma dinâmica própria, as pessoas que fazem sindicalismo sério não tem tempo nem de se coçar”.

Até mesmo quando não era diretor sindical já dava a sua dose de sacrifício pela categoria. Foi o caso da histórica greve de 1995, quando passou por situações um tanto complicadas. Agora, são boas histórias. “Foi uma aventura, uma loucura se você quer saber. Fomos de ônibus até Brasília, praticamente só com a roupa do corpo. Ficamos dias lá e para tomar banho recorremos à ajuda de um funcionário do Senado que nos deixava entrar escondidos no prédio. Pra se secar, só com papel toalha! O lugar para dormir foi terrível também. Por falta de recursos, ficamos no Ginásio Mané Garrincha. Tinha barata no alojamento. Não era uma, eram várias! Um calor terrível, aquilo era uma verdadeira sauna. Moral da história: resolvemos dormir no gramado, era melhor enfrentar as formigas do que enfrentar o calor e as baratas!”, relatou com sorriso no rosto.

Das muitas recordações, algumas delas ruins é verdade, como o velho e famigerado fogo amigo no meio sindical, Wilson prefere guardar os fatos que lhe aquecem o coração. Um exemplo? A greve de 1989, ano em que ingressou na Petrobrás. Ficou com receio de receber “cartão vermelho” da empresa, mas a vontade de lutar era maior e não hesitou em aderir à greve. Foi o único técnico de segurança do terminal a cruzar os braços naquele ano. Felizmente, após muito xaveco, ou o tradicional trabalho de base como se costuma dizer, conseguiu convencer os demais companheiros a fazerem parte das mobilizações nos anos seguintes. Mas não se ilude. O sindicalismo, confirma, pode ser comparado sim a um vício.

E como todo vício, quem disse que ele resiste a uma boa luta mesmo depois de pendurar as chuteiras? No último dia 28 de abril, data da primeira greve geral do século no país, lá estava Wilson Gomes na porta do Tebar conversando com os trabalhadores, dando sua parcela de contribuição para a luta da classe trabalhadora.    

Na entrevista concedida para o Sindipetro-LP, que é parte do documentário “Do outro lado do mar”, que aborda a história da categoria no Litoral Norte, Wilson Gomes conta essas e outras histórias que ilustram muito bem a tradição de luta da categoria petroleira. O entusiasmo ao lembrar dos amigos que cultivou e as lutas que travou é contagiante. Num período crítico como o que vivemos, conhecer o passado de lutas é condição obrigatória para seguir lutando por um Brasil soberano.



Nós por nós - em primeira pessoa, a história dos petroleiros do Litoral Paulista
O ‘Nós por Nós’ é uma iniciativa do Sindipetro Litoral Paulista, lançada em maio de 2017, que tem por objetivo resgatar e preservar a história dos petroleiros através de entrevistas em vídeos com personagens que foram e são importantes até hoje para a formação da categoria que reconhecemos, até hoje, como uma das mais importantes da classe trabalhadora brasileira.

Pela perspectiva dos trabalhadores, com um olhar classista, porém pessoal, o projeto pretende se transformar, inspirado na metodologia da história oral, em fonte de informação e inspiração para as atuais e futuras gerações de trabalhadores. Para nós, é fundamental conhecer o nosso passado para construir as atuais e futuras lutas por um país justo e igualitário. Conhece um trabalhador da Petrobrás, das bases do Litoral Paulista, que merece ter sua história contada? Que contribuiu para a luta em defesa de companhia 100% estatal e pública?

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