Uma greve histórica, construída de baixo para cima, que recoloca a categoria no centro da luta

ACT

Nesta terça-feira (30), a categoria petroleira deliberou de forma ampla, democrática e representativa em assembleias realizadas na sede e subsede do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, além do aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Nas bases que estavam sob liminar, as deliberações ocorreram envolvendo trabalhadores das plataformas, da RPBC, UTE-EZR, Tebar, UTGCA, Pilões e Alemoa.

Na pauta, foi aprovada a 4ª proposta com ajustes do ACT, bem como, a aprovação da Contribuição Assistencial de 2,5% sobre a RMNR para os trabalhadores não sócios.

A partir desse processo, fica ainda mais evidente que a greve de dezembro de 2025 já entrou para a história da categoria petroleira — e não por força de retórica. Trata-se de um movimento historicamente relevante, construído de forma espontânea e massiva, impulsionado diretamente pelos trabalhadores e trabalhadoras.

Não foi uma greve “convocada de cima”, mas sim um levante que brotou da base, da indignação acumulada diante de sucessivos ataques, retirada de direitos e do completo descaso da gestão encabeçada por Magda Chambriard.

Essa greve pegou de surpresa a gestão da Petrobrás, que apostou no blefe ao desconsiderar os alertas feitos em mesa de negociação de que a categoria poderia deflagrar um movimento desse tamanho. Foram 16 dias de luta. A empresa apostou no desgaste e acreditou que poderia desarticular a mobilização — e falhou miseravelmente.

Protagonismo nas unidades: unidade, consciência e disposição de luta
As bases da Transpetro — Pilões, Terminais de Santos e de São Sebastião — mantiveram mobilização firme ao longo de todo o movimento, enfrentando pressões operacionais e garantindo unidade. O mesmo ocorreu em Caraguatatuba, na UTGCA, onde os trabalhadores também sustentaram a mobilização diante das tentativas de desgaste.

A RPBC e UTE-EZR também cumpriram papel relevante, enfrentando liminares, pressão gerencial e tentativas de desmobilização, mas mantendo a resistência dentro dos limites impostos. Por se tratar de um prédio administrativo, a luta no EDISA teve um peso simbólico importante: mostrou que a greve extrapolou a produção e foi compreendida como um movimento legítimo e necessário também nos espaços administrativos da empresa

Um dos segmentos mais atacados ao longo do último ano pela gestão — os trabalhadores e trabalhadoras do offshore — assumiu papel central na mobilização. Foram os embarcados que desembarcaram, literalmente, para dar exemplo de unidade, consciência de classe e disposição de luta. Esse protagonismo não é casual. O offshore tem sido alvo constante de mudanças arbitrárias, retirada de direitos e ataques diretos às condições de trabalho. Ainda assim, mostrou que segue sendo capaz de liderar processos de enfrentamento quando os limites são ultrapassados.

Ao rei tudo, ao povo nada
A greve de dezembro de 2025 expressou uma disputa clara entre a categoria petroleira e a atual gestão da Petrobrás. Mais do que um embate pontual sobre cláusulas do Acordo Coletivo, o conflito evidenciou um modelo de gestão que aprofunda a cisão dentro da empresa: de um lado, acionistas amplamente beneficiados; de outro, trabalhadores relegados às migalhas.

Graças ao esforço direto dos trabalhadores e trabalhadoras, que garantiram o funcionamento das unidades de gás, plataformas, refinarias e terminais, a Petrobrás ampliou seus lucros e aumentou a produção, mesmo com a redução do preço do barril. No entanto, quando chegou o momento de retribuir esse esforço na mesa de negociação, a empresa se recusou a avançar. Optou por manter a política de generosa distribuição aos acionistas, enquanto negava melhorias concretas à força de trabalho que sustenta a operação.

Diante desse cenário, a greve cumpriu um papel central. Foi um movimento com duração significativa, sustentado por 16 dias, que arrancou da empresa uma nova proposta durante o período de paralisação, com avanços positivos. Manter a greve durante o Natal também teve um peso simbólico e prático importante: enquanto os trabalhadores se mantiveram firmes na luta, gerentes e setores alinhados à gestão foram obrigados a permanecer dentro das unidades, operando plataformas, refinarias e demais instalações em regime contínuo.

Outro resultado concreto da mobilização foi a conquista de compromissos formais da empresa, tanto da Petrobrás quanto da Transpetro, incluindo cláusulas de não punição, garantias contra retaliações e o abono parcial dos dias de greve: metade dos dias será abonada e a outra metade compensada ou desconto sem reflexos, por opção dos trabalhadores que permaneceram no movimento até o final. Esses pontos não foram concessões espontâneas, mas fruto direto da pressão exercida pela paralisação.

Ao final desse processo, o Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista sai maior do que entrou: fortalecido, testado na luta e respaldado por uma base ativa. Da mesma forma, a Federação Nacional dos Petroleiros demonstrou, desta vez de forma inequívoca, que se consolida como uma alternativa real de representação para a categoria em âmbito nacional. 

A  greve não resolveu todos os problemas, nem encerrou a disputa em curso, mas deixou uma mensagem clara: sem os trabalhadores, não há produção, não há lucro e não há empresa — e isso não pode seguir sendo ignorado.

Pressão, assédio e contracheques zerados: a face autoritária da gestão
A greve também escancarou, mais uma vez, a pior face da gestão da Petrobrás. Trabalhadores e trabalhadoras grevistas sofreram ligações intimidatórias, assédio pesado, ameaças veladas e explícitas e, por fim, uso do judiciário para calar o trabalhador. A tentativa foi clara: governar pelo medo e pela intimidação. Velha prática, nada de novo na terra de Abrantes.

Nada disso funcionou. A categoria resistiu e se manteve firme, atravessou o Natal e seguiu mostrando força. 

Aos pelegos: não há dignidade fora da coletividade
É impossível ignorar o papel daqueles que, em nome de ganhar dinheiro, “ficar bem na fita” com a chefia e preservar interesses individuais, optaram por virar as costas para a categoria. Esqueceram que são trabalhadores do chão de fábrica como qualquer outro.

A história é implacável: tudo o que foi conquistado foi fruto da luta de quem veste o uniforme laranja com orgulho, de quem se reconhece como petroleiro e não se submete ao papel de capataz da gestão. Essa postura deveria causar vergonha, porque ninguém conquista direitos sozinho — muito menos à custa da derrota coletiva.

Avanços arrancados na marra, ainda aquém do necessário
A greve arrancou da empresa uma quarta proposta, com alguns avanços, conforme apontado em estudos técnicos e materiais do IBEPS. É preciso ser honesto: o patamar alcançado ainda está longe do que a categoria reivindica e merece.

Mas também é preciso ser claro: nada disso existiria sem a greve. A alta cúpula da Petrobrás só se moveu porque foi pressionada, enfrentada e desafiada por uma mobilização que mostrou força real, apesar das tentativas de coação judicial contra a categoria.

Sob essa pressão, houve avanço importante, ainda que insuficiente, foi o compromisso assumido em relação à busca de uma solução para os PEDs. Esse passo não caiu do céu. Ele é resultado direto da luta incansável dos aposentados e pensionistas, que estiveram em vigilância permanente em frente ao Edisen, no Rio de Janeiro.

Graças à mobilização desses companheiros e companheiras, foi possível arrancar esse avanço, que beneficia toda a categoria, da ativa aos assistidos.

A greve de dezembro de 2025, que durou 16 dias, reafirmou algo fundamental: a certeza de que, quando a categoria petroleira luta, ninguém a ignora. Vencemos porque demonstramos, mais uma vez, que estamos na vanguarda das lutas da classe trabalhadora. Juntos, somos sempre mais fortes!

Agora é lutar por um plano de cargos digno para categoria petroleira!