Sindipetro Litoral Paulista faz um alerta: quando a “lei do mais forte” vira regra, quem paga é o povo

em Ato pela Soberania da Venezuela

E aqui entra um ponto que muita gente não vê — e que esteve no centro das conversas no Ato pela Soberania da Venezuela, do qual o Sindipetro-LP participou e ao qual se soma: essa disputa também é sobre moeda e poder. Exemplo prático: quando uma potência ameaça ou intervém num país como a Venezuela, a disputa costuma ter três alvos ao mesmo tempo: (1) garantir acesso ao petróleo, se precisar; (2) dificultar ou controlar o acesso de rivais como China, Rússia e Irã e, quando houver compra, pressionar para que o comércio siga em dólar; e (3) manter o “ciclo” do dólar forte, ancorado na energia negociada em dólar, para sustentar vantagem econômica — e, com ela, financiar o poder bélico que vira instrumento de coerção.
Desde que os EUA deixaram de trocar dólar por ouro (em 1971), o dólar passou a valer não por ter “ouro guardado” garantindo, mas porque o mundo inteiro foi empurrado a usá-lo como referência — pela força da economia americana, pela influência política e pelo controle de mecanismos do sistema financeiro. Uma peça central disso, por décadas, foi o petróleo: em grande parte do comércio internacional, petróleo é precificado e pago em dólar. Resultado: países que precisam comprar energia precisam ter dólares — e esse fluxo sustenta a centralidade do dólar.

Mas dá para ir além: a manutenção do poder imperialista depende desse ciclo. Uma moeda forte ajuda a financiar o poder bélico; o poder bélico vira instrumento de coerção; a coerção garante vantagens econômicas e acesso a recursos estratégicos; e essas vantagens, por sua vez, reforçam a moeda — e assim sucessivamente. Quando esse circuito começa a ser questionado — inclusive pela ascensão econômica e militar de países como China e Rússia — cresce a tentação de “resolver” disputas com bloqueios, ameaças e intervenções, para frear a perda de hegemonia. É por isso que, quando alguns países tentam vender/receber por outros caminhos, isso não derruba nada de um dia para o outro, mas incomoda: mexe numa engrenagem de poder que está por trás de chantagens e “soluções” impostas.

Por isso, o Sindipetro-LP reafirma: seguirá presente e à disposição para se somar a novos atos e protestos que venham a ser organizados, fortalecendo a solidariedade internacional e a defesa da soberania dos povos.
O Sindipetro-LP se somou, no sábado (10), ao Ato pela Soberania da Venezuela, em Caraguatatuba, na Praça Cândido Mota (Praça do Coreto), organizado pelo Fórum Sindical e Movimentos Sociais do Litoral Norte. A mobilização reafirmou a solidariedade ao povo venezuelano e a autodeterminação dos povos, denunciando embargos e práticas imperialistas e defendendo a unidade latino-americana e a construção de uma frente anti-imperialista na região. E, para que esse alerta não fique só no discurso — e para evidenciar por que ele pesa diretamente no prato, no emprego e na vida de quem vive do trabalho — é preciso olhar de frente os fatos que hoje afligem o povo venezuelano.

O que aconteceu na Venezuela precisa ser explicado do jeito que importa para trabalhadores e trabalhadoras: não é “briga lá fora”. É uma crise que mexe com energia, comida, emprego e soberania. No dia 3 de janeiro, os EUA realizaram uma operação em Caracas e anunciaram a captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, algo que acendeu alertas internacionais por violar a soberania de um país e por abrir um precedente perigoso nas relações entre nações.
Quando uma potência decide que pode “resolver” outro país na marra, o mundo entra num modo mais instável. E instabilidade, para o povo, tem tradução imediata: sobe o risco, sobe a especulação e sobe o custo de vida. Energia é a base de tudo — transporte, gás, produção, frete. Se mexe no petróleo, mexe no diesel; se sobe o diesel, sobe o frete; se sobe o frete, sobe a comida. E, enquanto isso, o salário quase sempre fica para trás. Por isso intervenção e guerra nunca são “neutras”: elas tiram do bolso de quem vive do trabalho e protegem os interesses de quem lucra com crise.

A Venezuela está sob um estrangulamento econômico construído por sanções. As restrições dos EUA atingem, em especial, o setor de petróleo e a PDVSA (estatal venezuelana), dificultando financiamento, contratos, seguros, navios, bancos e formas de pagamento; e a União Europeia mantém medidas restritivas desde 2017 (como embargo de armas/equipamentos e sanções individuais). Na prática, isso empurra a Venezuela a vender “como dá”: com intermediários, rotas indiretas e manobras logísticas. A própria Reuters mostrou cargas de petróleo venezuelano rebatizadas como “brasileiras” para chegar à China e contornar bloqueios. E quando o bloqueio aperta ainda mais, a pressão vira financeira: há registro de que a PDVSA passou a exigir, em certos negócios, pré-pagamento via USDT (cripto) e que novos clientes tenham carteira digital, tentando reduzir o risco de travas no sistema bancário tradicional.

Por isso faz sentido dizer, sem rodeio: a política externa das grandes potências não se move por “princípios” abstratos, mas por interesses concretos. E, quando o centro do sistema sente sua hegemonia escorregar, tende a apertar o cerco — com sanções, ameaças, intervenções e pressão permanente — para tentar manter a roda girando do jeito que sempre girou.

Nós, petroleiros e petroleiras, sabemos o que significa recurso estratégico. Quem controla energia controla muito mais do que barril: controla preço, indústria, orçamento público e o destino de um país. Defender a soberania da Venezuela é defender um princípio que protege toda a América Latina — inclusive o Brasil e a Petrobrás. Quando a “lei do mais forte” vira regra, nenhum povo está seguro e nenhum trabalhador ou trabalhadora consegue proteger seu futuro. O Sindipetro-LP se coloca ao lado dos povos contra embargos, intervenções e qualquer tentativa de tutela externa. A resposta que nos interessa é de classe: solidariedade internacional, organização e luta, porque soberania não é discurso — é condição para ter direitos, trabalho digno e vida com segurança.