Histórica!
O ano de 2025 ficará marcado como um divisor de águas na história recente da categoria petroleira. Após anos de insatisfação acumulada, ataques sucessivos a direitos e uma política permanente de austeridade, a greve de dezembro explodiu como um grito represado. O movimento revelou algo fundamental: a disposição de luta nunca foi derrotada — apenas contida à força.
Sob a gestão da Petrobrás, presidida por Magda Chambriard, a empresa aprofundou uma política que escancara suas verdadeiras prioridades. Apenas em 2025, foram aprovados R$ 12,16 bilhões em proventos aos acionistas, somando-se a outros repasses bilionários ao longo do ano. Enquanto isso, oferecia como “proposta” um irrisório 0,5% de ganho real, sem recomposição das perdas históricas. Um verdadeiro deboche diante de resultados bilionários.
Essa contradição foi o estopim da greve. Incapaz de convencer pela via negocial — já que oferecia quirela a quem produz um banquete — o alto escalão da companhia respondeu com intransigência. Sob a batuta de Magda Chambriard, a Petrobrás optou por tratar sua própria força de trabalho como obstáculo a ser removido, e não como sujeito de direitos. É ainda mais grave quando se lembra que Magda já esteve do outro lado da mesa, como trabalhadora petroleira. O cargo, ao que tudo indica, não apenas distanciou — apagou memórias, valores e compromissos de classe. O que se viu foi uma gestão que age como se nunca tivesse vivido a realidade do chão de fábrica, substituindo diálogo por imposição e negociação por ameaça.
A empresa só começou a fingir disposição para negociar quando, sob o grito “Menos Acionistas, Mais ACT”, a produção passou a ser diretamente afetada e as unidades ficaram reféns de grupos de contingência improvisados, formados por pelegos despreparados e colocadas ali apenas para tentar quebrar a greve a qualquer custo. Até então, o que imperou foi o autoritarismo: desrespeito sistemático, assédio cotidiano e práticas abertamente antissindicais, com gerências transformadas em verdadeiras máquinas de moer gente.
Sem conseguir impor sua vontade na mesa de negociação, a direção da Petrobrás recorreu de forma covarde ao Judiciário. Encerrou unilateralmente qualquer tentativa de composição e ajuizou um dissídio coletivo junto à Justiça do Trabalho, empurrando goela abaixo dos sindicatos multas estratosféricas para tentar intimidar grevistas e direções sindicais. Ficou explícito que, quando não consegue vencer no diálogo, a alta cúpula joga baixo para alcançar seus objetivos.
A greve de dezembro de 2025 entra para a história como a mais importante desta geração petroleira. Muitos dos grandes lutadores de outros movimentos históricos hoje estão aposentados, mas uma nova geração assumiu o protagonismo. Trabalhadores e trabalhadoras mais jovens, muitos com pouco tempo de casa, sustentaram 16 dias intensos de piquetes, enfrentaram pressões e demonstraram que a chama da luta não se apagou — foi passada adiante.
Trata-se de uma das maiores greves dos últimos anos em nível de adesão e participação. Um movimento orgânico, visceral, construído de baixo para cima e protagonizado exclusivamente pelos trabalhadores e trabalhadoras, cansados de produzir muito e receber pouco. Não foi uma greve imposta ou conduzida por convencimento vertical de sindicatos ou federações, mas encabeçada pela própria base.
É fundamental destacar também a Vigília dos Aposentados, Aposentadas e Pensionistas, parcela historicamente discriminada da categoria, que carrega, a cada ACT, o acúmulo de perdas e ataques sistemáticos. Mesmo tratada pelo alto escalão da Petrobrás como um problema a ser empurrado para fora da mesa de negociação, essa parcela da categoria teve papel decisivo na greve. A mobilização permanente contra os PEDs, pela cobrança da dívida que a empresa tem e contra a migração compulsória começou antes mesmo da deflagração da greve e se manteve durante todo o movimento. A presença firme de aposentados, aposentadas e pensionistas, acampados em frente ao Edisen, no Rio de Janeiro, expôs a postura excludente da empresa e impediu que a gestão varresse para debaixo do tapete um dos conflitos mais graves produzidos pela própria Petrobrás.
Ainda assim, é inegável que a Federação Nacional dos Petroleiros saiu maior do que entrou da campanha de 2025. Ao atuar de forma independente de governos e da gestão da empresa, consolidou-se como uma alternativa real de representação nacional da categoria.
Apesar da conduta autoritária de Magda Chambriard e de seu séquito no alto escalão da Petrobrás, houve avanços, sim. Não por iniciativa da empresa, muito menos por sensibilidade social da gestão, mas porque a greve impôs limites à sanha de ataques. Cada conquista arrancada foi resultado direto da paralisação, da pressão e da disposição de enfrentamento da categoria — jamais de boa vontade de uma direção que escolheu proteger dividendos e esmagar direitos.
A greve arrancou da empresa uma nova proposta ainda durante o período de paralisação, conteve ataques mais profundos e garantiu conquistas parciais. Também forçou compromissos, como a busca por uma solução para os PEDs, ainda que a Petrobrás siga, de forma deliberada, mantendo aposentados, aposentadas e pensionistas à margem das negociações.
Como resultado direto da mobilização, ficou estabelecido que metade dos dias de greve será abonada e a outra metade descontada, com possibilidade de compensação via banco de horas, sem qualquer punição, perseguição ou transferência, e sem reflexos na vida funcional dos trabalhadores e trabalhadoras que participaram do movimento.
Ao mesmo tempo, é preciso dizer sem rodeios: a empresa se recusou a fazer justiça salarial. Não houve reposição digna; o chamado “ganho real” foi vergonhoso e, de maneira ainda mais criminosa, negado aos aposentados, aposentadas e pensionistas. O teletrabalho seguiu sendo um bode na sala, enquanto temas centrais como os PEDs, o Plano de Cargos e a carreira foram empurrados para gavetas sob o rótulo vazio de “compromissos” e “grupos de trabalho”. Pior: a Petrobrás impôs retrocessos claros, como os custos da APS, reajustes diferenciados que penalizam ainda aposentados e a supressão de folgas. Nada disso será esquecido. Esses ataques seguem abertos e continuarão sendo enfrentados com luta, organização e mobilização.
O maior ganho, no entanto, foi político. Durante 16 dias de greve, as bases demonstraram força, unidade e capacidade de paralisar setores estratégicos. O país voltou a enxergar uma categoria organizada e combativa — algo que muitos acreditavam não existir mais, ainda mais sob um governo liderado por um presidente de origem operária.
Um dos episódios mais marcantes dos últimos dias de greve foi a rebelião de importantes bases da Federação Única dos Petroleiros: o Sindipetro Ceará/Piauí, o Sindipetro Minas Gerais, o Sindipetro Norte Fluminense, o Sindipetro Espírito Santo e o Sindipetro Caxias, que se recusaram a seguir o indicativo da direção de aceitar a proposta da empresa e optaram por manter a greve.
Essas derrotas empurradas goela abaixo da FUP escancararam o repúdio crescente ao sindicalismo de conciliação, de conchavo com a empresa e completamente distante da realidade vivida nas unidades de terra e mar.
Era legítima — e plenamente possível — a luta por aumento real. Poderíamos ter arrancado conquistas mais amplas se não fosse a decisão da FUP de desmontar a greve justamente no seu momento mais maduro. Trata-se do mesmo modus operandi de sempre, que fragiliza a mobilização quando ela atinge seu ponto de maior força.
Ainda assim, diferentemente de outras campanhas salariais, o encerramento da greve não pode gerar frustração, apatia ou sensação de derrota. O sentimento predominante tem de ser de vitória política e moral. A categoria saiu mais consciente, mais organizada e muito mais preparada para os enfrentamentos que virão.
Essa greve também foi um acerto de contas com o passado recente. Após quatro anos de um governo de direita que tentou desmontar o sistema Petrobrás, vendeu ativos a preço de banana, atacou direitos, negligenciou vidas durante a pandemia e impôs um plano de “resiliência”, os petroleiros deixaram claro que não aceitarão que esses ataques sejam normalizados — muito menos aprofundados — pela atual gestão.
A mensagem está dada: a Petrobrás não é apenas uma empresa que distribui dividendos. Ela é fruto da luta da classe trabalhadora. As futuras gestões pensarão duas vezes antes de tratar petroleiros e petroleiras com tamanho descaso. A greve de 2025 provou que a história pesa e que, quando a base se levanta, o jogo muda.
Por fim, a categoria precisa permanecer mobilizada, já que o plano de cargos e salários está às portas, e será fundamental para avançarmos na negociação e, assim, garantir a verdadeira valorização de quem constrói a empresa.
Parabéns a toda a categoria petroleira!
