Na luta!
Em vez de representar descanso e segurança, o Dia Nacional do Aposentado expõe o contrário: o país empurrou a aposentadoria para um caminho cada vez mais longo, com regras que mudam no meio da travessia — e com gente que trabalha a vida inteira sem conseguir chegar ao direito pleno.
Desde a aprovação da Reforma da Previdência, em 2019, os direitos previdenciários passaram a sofrer ataques contínuos. As mudanças elevaram a idade mínima, ampliaram o tempo de contribuição e alteraram profundamente o cálculo dos benefícios, que passou a considerar todo o histórico contributivo, inclusive os salários mais baixos. Para alcançar o valor integral da aposentadoria, a classe trabalhadora passou a precisar de 40 anos de contribuição — um patamar distante demais para quem enfrenta rotatividade, informalidade e períodos de desemprego. As regras de transição, por sua vez, tornam-se mais rígidas a cada ano, empurrando o direito à aposentadoria para um horizonte cada vez mais distante.
Esse conjunto de medidas aprofundou a insegurança social e contribuiu para a deterioração das condições de vida de milhões de beneficiários do INSS, sobretudo no “período das trevas” encabeçado pela dupla Bolsonaro e Guedes, entre 2019 e 2022, marcado por políticas de austeridade, congelamento de benefícios e ausência de qualquer recomposição real — o que corroeu significativamente o poder de compra e a sobrevivência dessa parcela da população.
A realidade da “velha guarda” petroleira
A trajetória da Petrobras e da soberania energética brasileira — a capacidade do Brasil de explorar petróleo a mais de sete mil metros de profundidade, abaixo da camada do pré-sal — tem marca do trabalho de petroleiros e petroleiras que hoje já “penduraram as chuteiras” e que continuam sendo parte da categoria, com o mesmo direito de serem defendidos.
Quem dedicou décadas à Petrobras e ao país convive, hoje, com benefícios pressionados, perda de poder de compra e uma rotina de descontos que sufoca a renda familiar. A Petros reúne atualmente cerca de 177 mil participantes, entre trabalhadores da ativa, aposentados e pensionistas do Sistema Petrobras. Uma parcela expressiva vive sob o peso de benefícios defasados, longos períodos sem aumento real e descontos elevados dos PEDs, que, em muitos casos, disputam espaço com remédio, aluguel, alimentação e o próprio custo de envelhecer.
O déficit da Petros poderia ser significativamente reduzido caso a Petrobras quitasse suas dívidas históricas com o fundo — e, principalmente, com a categoria, a maior prejudicada. E a conta não fecha para quem vive de benefício. Soma-se a isso um plano de saúde que, em vez de ser segurança, virou outra fonte permanente de instabilidade. Entre reajustes, cobranças, descredenciamentos e dúvidas sobre saldos e cobranças, o orçamento familiar vira um “aperto de cinto” contínuo. E isso pesa ainda mais quando a assistência deixa de ser um direito vivido como proteção e passa a ser sentida como risco.
A luta contra os PEDs e a construção de alternativas
Centenas de petroleiros e petroleiras de diversos estados têm participado de mobilizações nacionais em defesa da Petros, organizadas pelas entidades que integram o Fórum em Defesa dos Participantes da Petros — Federação Nacional dos Petroleiros, Federação Única dos Petroleiros, CONTTMAF, Fenaspe e Ambep. As manifestações cobram da Petrobras o cumprimento de sua responsabilidade como copatrocinadora do fundo, exigindo o fim dos equacionamentos e a quitação das dívidas.
Nesse processo, é importante destacar a Caravana Nacional da Informação. Entre fevereiro e abril de 2025, a Caravana funcionou como um grande esforço coletivo de esclarecimento: em vez de deixar cada participante “se virar” sozinho com dúvidas e números, a iniciativa levou debate e orientação presencial a diferentes regiões do país, ajudando a expor, de forma concreta, como os PEDs impactam o contracheque e quais caminhos estavam sendo discutidos.
O resultado foi o fortalecimento e a organização dos participantes, com mais gente acompanhando o tema com base em informação — e não em boatos. Quando a categoria entende o problema no detalhe, ela também ganha mais condição de cobrar solução e de sustentar mobilização com muito mais consciência.
No âmbito da Comissão Quadripartite, com participação da Petrobras, da Petros, da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais e da Superintendência Nacional de Previdência Complementar, foi construída uma alternativa que impede que o benefício continue sendo drenado pelos equacionamentos: a estruturação de um novo plano — com regras e coberturas equivalentes — mas sem reproduzir o mecanismo que transforma os PEDs em desconto permanente, hoje responsável por reduzir de forma severa e brutal a renda mensal de muitos participantes.
Vigília no Edisen e a força da mobilização
Em dezembro de 2025, aposentados, aposentadas e pensionistas de todo o país realizaram vigília em frente ao Edifício Senado, no Rio de Janeiro, como parte da luta contra os equacionamentos e da campanha salarial. A mobilização pressionou a empresa durante as negociações do Acordo Coletivo de Trabalho.
A pressão acumulada em 2025 — nas ruas, nas vigílias e no enfrentamento de dezembro — levou a Petrobras a registrar por escrito uma carta-compromisso sobre os equacionamentos. O documento sinaliza continuidade das tratativas com as entidades, aponta encaminhamentos de mediação e explicita a necessidade de organizar etapas e prazos para uma solução que reduza o impacto dos PEDs. O principal recado é que a discussão não pode seguir no escuro: quem sofre o desconto precisa ter informação clara, previsibilidade e resposta concreta — tanto quem já recebe benefício quanto quem ainda está na ativa.
Ainda assim, o ACT firmado voltou a ignorar essa parcela da categoria, que segue sendo colocada para escanteio sem qualquer recomposição das perdas salariais acumuladas ao longo dos anos ou garantia de ganho real. Trata-se de uma realidade amarga e recorrente — um verdadeiro “samba de uma nota só”, conduzido por sucessivas gestões que priorizam a remuneração de acionistas em detrimento de quem construiu a empresa.
Como se não bastasse, a proposta ainda colocou “mais água no chopp” de quem, ano após ano, vem sendo penalizado pela negligência patronal: ao incluir despesas administrativas no custeio, a empresa transferiu uma parcela dos custos de manutenção do plano de saúde para os próprios beneficiários, aprofundando a injustiça contra quem já arca caro demais pelos efeitos de uma omissão histórica, mesmo que este custo seja para o público abaixo de 60 anos.
Um futuro que exige vigilância
A experiência recente demonstra que decisões administrativas — como diretrizes da SEST — vêm sendo utilizadas para restringir direitos coletivos, e aprofundar ataque com objetivo de reduzir custos pós empregos. Diante desse histórico, cresce a preocupação de que medidas semelhantes possam atingir os planos de saúde e o vínculo dos aposentados com os benefícios das empresas.
Diante dos ataques, a atuação conjunta dos sindicatos, federações, aposentados, pensionistas e trabalhadores da ativa tem se mostrado fundamental. A experiência acumulada pelos aposentados fortalece o movimento petroleiro e reafirma uma verdade histórica: quando o aposentado conquista uma vitória, toda a categoria avança — e, quando perde, o impacto também é coletivo.
Neste 24 de janeiro, Dia Nacional do Aposentado, fica o recado que a categoria conhece na pele: quando o aposentado conquista uma vitória, a ativa avança junto. E quando o aposentado perde, o prejuízo também é coletivo. Defender aposentados e aposentadas é defender a Petrobras como projeto, a categoria como força e o direito como algo que não se negocia para trás.
Fonte: FNP
