Redução anunciada pela Petrobras não chega ao bolso e expõe efeitos da privatização da BR Distribuidora

BR Distribuora

A Petrobras anunciou, no dia 27 de janeiro, uma redução de até 5,2% no preço da gasolina tipo A vendida às distribuidoras, o que representa uma queda de R$ 0,14 por litro, passando de R$ 2,71 para R$ 2,57. Foi o primeiro reajuste da empresa em 2026 e, à primeira vista, poderia indicar algum alívio para o consumidor.

Na prática, porém, esse alívio não chega ao orçamento de quem paga a conta no fim do mês. Isso ocorre porque o preço definido pela Petrobras responde hoje por cerca de 30% do valor final pago nos postos.

Aproximadamente 35,5% do preço da gasolina é formado por tributos, sendo 24,8% estaduais (ICMS) e 10,7% federais (PIS/Cofins e Cide). Além disso, o etanol anidro representa cerca de 16,7% do preço final, enquanto os custos de distribuição e revenda ficam em torno de 17,7%, incluindo logística, frete e margens de lucro das distribuidoras e dos donos de postos. Ou seja, mesmo quando há redução na refinaria, ela se dilui ao longo da cadeia.

Por isso, o problema central deixou de estar na produção e passou a se concentrar na estrutura de distribuição de combustíveis no Brasil. Os dados confirmam esse movimento. Em 2025, enquanto o preço do petróleo no mercado internacional e o Preço de Paridade de Importação (PPI) acumulavam quedas significativas, as margens da distribuição e da revenda seguiram no sentido oposto. O custo caiu, mas o preço não acompanhou. A diferença foi apropriada pelas distribuidoras privadas.

Segundo dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com base nos volumes de combustíveis comercializados até dezembro de 2025, a Vibra Energia — antiga BR Distribuidora — manteve a liderança como a maior distribuidora de combustíveis do país no acumulado do ano. Mesmo com oscilações pontuais mês a mês, Vibra, Ipiranga e Raízen seguem concentrando a maior parte do mercado nacional de distribuição, com a Vibra à frente em participação no volume total vendido. Trata-se de um volume gigantesco de capital gerado não na produção, mas no controle da logística e da distribuição.

Esse cenário se consolidou após a privatização da BR Distribuidora. Quando era pública, a empresa cumpria um papel estratégico no sistema energético nacional, funcionando como instrumento de regulação indireta, ajudando a conter abusos, reduzir distorções regionais e amortecer oscilações do mercado internacional.

A Petrobras fazia todo o processo do poço ao posto e assim garantia maior capacidade de influência sobre o valor final ao consumidor. Após a privatização, esse papel foi abandonado. O que se consolidou foi um oligopólio privado focado exclusivamente na maximização de lucros, mesmo em um contexto de queda de custos.

A privatização da BR Distribuidora foi um dos grandes ataques à soberania energética do país. Orquestrada no governo Bolsonaro, sob a condução de Paulo Guedes, não trouxe eficiência nem preços mais baixos para a população. Trouxe ganhos expressivos apenas para a iniciativa privada, ampliou a concentração de mercado e retirou do Estado brasileiro um instrumento fundamental de política pública.

Essa é mais uma herança da sanha privatista deixada ao país. Hoje, mesmo com a Petrobras reduzindo preços nas refinarias e com o petróleo em queda no mercado internacional, os combustíveis seguem pesando no orçamento de trabalhadores e trabalhadoras, aposentados e pensionistas, caminhoneiros, famílias que cozinham com gás e toda a sociedade que depende do transporte e da energia para viver e sobreviver.

Os dados desmontam o discurso de que a privatização traria mais competição e eficiência. O que cresceu não foi a concorrência, mas a margem de lucro. E quando a margem cresce enquanto o custo cai, alguém está pagando essa conta. No Brasil, essa conta recai sobre o povo.

Defender a retomada do papel da Petrobras na distribuição não é nostalgia, nem ideologia. É soberania, é proteção ao consumidor e é política pública. Sem uma distribuidora pública forte e comprometida com o interesse nacional, o preço do combustível deixa de ser uma questão energética e passa a ser apenas mais um instrumento de concentração de renda.

Fontes: Agência Brasil, ANP, Petrobras (composição de preços), Vibra Energia, Fecombustíveis, INEEP e CNN

Fonte: FNP