Não queremos flores!
A luta por direitos não admite flores. Exige justiça, organização e enfrentamento às estruturas que perpetuam a violência.
Março começou com uma emboscada cruel. Planejada. Calculada. Uma adolescente de 17 anos foi estuprada coletivamente e espancada pelo ex-namorado e por quatro amigos dele, no Rio de Janeiro. O crime ocorreu em 31 de janeiro, mas só veio a público na última segunda-feira (2). Cinco agressores — um deles também menor de idade. Não foi “excesso”. Não foi “impulso”. Não foi “erro”. Foi machismo estrutural. Foi cultura do estupro. Foi a certeza histórica de que, no Brasil, homens violentos contam com a impunidade como aliada — independentemente da idade.
O discurso redpill, a misoginia organizada nas redes sociais e a normalização do ódio às mulheres alimentam essa engrenagem mortífera. Jovens são doutrinados a enxergar mulheres como inimigas, propriedade ou objeto a ser punido quando ousam dizer não — e cada vez mais cedo. E quando o Estado demora a agir, quando a sociedade relativiza, quando se pergunta “o que ela fez”, “onde estava”, “como estava vestida”, estamos dizendo aos agressores: vocês podem.
Os dados apontam padrão — não exceção
O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) — a maior taxa da série histórica iniciada em 2015. Quatro mulheres são assassinadas por dia em razão de sua condição de gênero. Desde 2015, pelo menos 13.703 mulheres foram mortas sob essa tipificação.
A Justiça brasileira, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), julgou em média 42 casos de feminicídio por dia em 2025, totalizando 15.453 julgamentos. Foram julgados, em média, 1.710 casos de violência doméstica por dia. Entre 2021 e 2024, 97,3% dos feminicídios foram cometidos exclusivamente por homens — 59,4% pelos companheiros e 21,3% por ex-companheiros. A residência da vítima foi o local do crime em 66,3% das ocorrências.
Isso não é caso isolado. É estrutura. É repetição social. É o resultado de uma sociedade que ainda naturaliza a violência de gênero — e que escancara sua face mais cruel quando falta rede de proteção: mais de 70% dos municípios com menos de 100 mil habitantes não possuem nenhum serviço especializado para atender mulheres em situação de violência.
A lógica da culpa: de Ângela Diniz a Mari Ferrer
Em 2020, Mari Ferrer foi estuprada em Vitória. No julgamento, a defesa tentou culpabilizá-la pelo álcool, pela roupa, pelo comportamento — a mesma lógica que, em 1976, absolveu Doca Street pelo assassinato de Ângela Diniz sob a tese da “legítima defesa da honra”. O STF só declarou essa tese inconstitucional em 2021, 45 anos depois. A estratégia muda de nome, mas persiste: mulher violentada ou morta é sempre, de alguma forma, colocada no banco dos réus.
Leis existem, mas a prática enterra mulheres
Desde 1993, na Conferência Mundial de Direitos Humanos em Viena, a violência contra mulheres é reconhecida como violação de direitos humanos. No papel, avançamos. Na prática, seguimos enterrando mulheres diariamente.
As mulheres precisam conhecer — e exigir o cumprimento — das leis que as protegem:
• Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) — Cria mecanismos de prevenção e atendimento às mulheres em situação de violência doméstica e familiar, incluindo medidas protetivas de urgência. Estabelece rede de atendimento (delegacias especializadas, abrigos, Centros de Referência) e obriga a Justiça a priorizar o julgamento desses casos. Completa 20 anos em 2026.
• Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) — Tipifica como crime hediondo o assassinato de mulheres por razões de gênero, endurece o tratamento penal e reconhece que essas mortes resultam de desigualdades estruturais e padrões de controle sobre o corpo feminino.
• Lei Carolina Dieckmann (Lei 12.737/2012) — Criminaliza a invasão de dispositivos eletrônicos para obter dados pessoais, fotos ou vídeos íntimos, combatendo a violência digital e a exposição forçada na internet.
• Lei do Minuto Seguinte (Lei 12.845/2013) — Garante atendimento integral e gratuito em serviços de saúde às vítimas de violência sexual, incluindo profilaxia para ISTs e anticoncepção de emergência, sem necessidade de boletim de ocorrência prévio.
• Lei de Combate à Violência Política contra a Mulher (Lei 14.192/2021) — Pune ataques e discriminação que visem impedir a participação feminina na política, garantindo condições equitativas de competição eleitoral.
• Lei do Stalking (Lei 14.132/2021) — Tipifica como crime a perseguição obsessiva (stalking), fechando lacuna legal para casos que frequentemente antecedem feminicídios.
• Lei de Igualdade Salarial (Lei 14.611/2023) — Obriga empresas com mais de 100 funcionários a divulgar relatórios de transparência salarial por sexo e raça, reconhecendo a desigualdade de rendimentos como violência econômica estrutural.
Mas precisamos avançar. O Brasil segue sem respostas proporcionais à violência de gênero que também se organiza no mundo digital: falta enfrentamento efetivo à misoginia organizada, falta responsabilização exemplar de quem incita ódio e perseguição, e falta resposta adequada para a violência juvenil de gênero. O ódio não é opinião quando vira prática social que incentiva crime.
Seguimos discutindo se o problema existe, enquanto mulheres são mortas todos os dias e os casos se acumulam no sistema de Justiça. A violência pode e deve ser denunciada pelo Ligue 180 (24h) ou pelo 190, em caso de emergência. Mas denunciar não pode ser um ato solitário. Precisa ser política pública estruturada, com orçamento, acolhimento, proteção e punição exemplar.
A mulher trabalhadora na Petrobrás: avanço simbólico, contradição real
Pela primeira vez na história, a Petrobrás tem maioria feminina na alta gestão. A nomeação de cinco mulheres entre os nove cargos da diretoria, incluindo a presidência de Magda Chambriard, é um marco. É simbólico. É importante.
Mas não é suficiente. Enquanto celebramos a diversidade no topo, trabalhadoras seguem denunciando assédio sexual, injúria racial, ameaças e violência sexual dentro das instalações da empresa. A violência não começa quando um homem dá um tapa — começa quando a estrutura permite, omite e protege.
Os sindicatos de petroleiros há anos recebem denúncias graves envolvendo trabalhadoras próprias e contratadas. Muitas não denunciam por medo de retaliação ou demissão — especialmente as contratadas, que vivem sob permanente insegurança. Há unidades onde ainda se luta por banheiros e vestiários adequados. Onde o assédio é naturalizado. Onde processos investigativos não avançam. Onde o agressor é protegido pela estrutura hierárquica.
A empresa pode estar na vanguarda da diversidade estatística, mas na base a realidade reproduz a sociedade machista que fingimos combater. Não basta ter mulheres na diretoria se as mulheres no ”chão de fábrica” seguem desprotegidas e acuadas.
Feminismo é também pauta sindical
O 8 de Março não é data comercial. É data de luta. Para o movimento sindical na Petrobrás, isso significa concretamente:
• Ambientes de trabalho seguros, com protocolos reais contra assédio
• Proteção às denunciantes, sem retaliação — especialmente terceirizadas
• Igualdade salarial concreta, não apenas estatística
• Combate à misoginia institucional em processos disciplinares
• Formação permanente sobre gênero nas categorias
Porque machismo também é questão de classe. Porque violência de gênero também é questão trabalhista. Porque nenhuma mulher deve escolher entre o emprego e a dignidade.
Neste 8 de Março, não queremos flores. Exigimos justiça. Para celebrar a data, precisamos estar vivas. Não vamos mais permitir que novas Cibelles, Josianes e Tainaras se tornem estatísticas.
A misoginia é construção histórica pautada no ódio às mulheres: quando eram queimadas como bruxas, quando divorciadas eram execradas, quando apanhavam sem direito a reclamar. A escalada da violência demonstra que, a cada dia, homens mais jovens estão se sentindo autorizados a cometer esses crimes — como o adolescente de 17 anos entre os agressores do Rio de Janeiro.
A violência também existe quando algum homem, ouve, presencia e sabe de qualquer tipo de violência e se cala. Agir contra esse sistema brutal é obrigação. Enquanto homens sobem montanhas em busca de autoaperfeiçoamento, mulheres continuam sendo levadas para debaixo da terra. Essa é a mais dura realidade — e é por isso que a nossa luta continua.
A luta é por vida, dignidade e direitos. O silêncio é cúmplice. A omissão é violência. A organização é a saída.
Fontes: Conselho Nacional de Justiça (CNJ); Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP); Agência Brasil; CNN Brasil; Atlas da Violência (Ipea/FBSP); Plataforma Magêni.
Denúncias pelo Ligue 180 (24h, gratuito) ou 190 (emergência).
