28 de Abril reforça luta por segurança no ambiente de trabalho e denuncia negligência que custa vidas

Triste realidade

O 28 de abril, Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, é marcado por reflexão, denúncia e mobilização. Instituída pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e oficializada no Brasil pela Lei nº 11.121/2005, a data expõe uma realidade persistente: trabalhadores seguem adoecendo e morrendo em decorrência de condições inseguras.
No Brasil, a dificuldade de mensurar a real dimensão dos acidentes de trabalho ainda é um obstáculo. A subnotificação, a falta de padronização na coleta de dados e a ausência de um sistema unificado de registros escondem a gravidade do problema e dificultam a formulação de políticas eficazes.

Mesmo assim, os números disponíveis já acendem o alerta. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que o país registrou mais de 380 mil acidentes de trabalho apenas no primeiro semestre de 2025 — exatamente 380.376 ocorrências —, com 1.689 mortes no período. Os dados representam aumento de quase 9% nos acidentes e mais de 5% nos óbitos em comparação ao mesmo intervalo de 2024. Além disso, os dados indicam crescimento expressivo nos afastamentos por incapacidade, evidenciando o agravamento das condições de trabalho e seus impactos diretos sobre a saúde da classe trabalhadora.Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab) reforçam o cenário estrutural: entre 2012 e 2024, foram mais de 7,5 milhões de acidentes e cerca de 31,3 mil mortes com carteira assinada, gerando um custo previdenciário superior a R$ 163 bilhões.

Sistema Petrobrás expõe contradições entre discurso e prática
No Sistema Petrobras, a realidade enfrentada pelos trabalhadores contrasta com o discurso institucional de prioridade à segurança. A gestão é marcada por uma política de redução de custos e metas produtivas que, na prática, fragilizam condições de trabalho e ampliam riscos principalmente dos trabalhadores contratados.

Casos recentes reforçam o alerta:
Tragédia em Cabiúnas (2024): a morte da trabalhadora Rafaela Martins, de 27 anos, em um acidente com equipamento pesado no Terminal de Macaé, evidenciou falhas graves de fiscalização e organização operacional.
Incêndio na plataforma PCH-1 (2025): a explosão no Campo de Cherne, na Bacia de Campos, resultou no desembarque emergencial de 176 trabalhadores, expondo riscos estruturais e manutenção inadequada.
Acidentes em refinarias: ocorrências na REDUC e na RNEST envolveram morte, queimaduras químicas e explosões, reforçando a pressão operacional e o impacto da redução de efetivo.
Mais do que números, são vidas interrompidas e famílias impactadas por uma lógica que ainda coloca o lucro acima da vida.

Saúde do trabalhador vai além dos acidentes visíveis
Além dos danos físicos imediatos, cresce a preocupação com o avanço do adoecimento ocupacional, que atinge cada vez mais trabalhadores de forma silenciosa e contínua. Esse tipo de adoecimento envolve alterações biológicas ou funcionais — tanto físicas quanto mentais — diretamente relacionadas às condições de trabalho. Entre os principais fatores de risco estão a exposição a agentes químicos (vapores e gases), físicos (ruídos, vibrações, radiações e temperaturas extremas) e biológicos (fungos, vírus, bactérias e parasitas). Somam-se a isso os problemas na organização do trabalho, como jornadas exaustivas, pressão por metas, assédio moral e sexual e acúmulo de funções, que geram sobrecarga física e mental.

Esse cenário reforça um alerta da Organização Internacional do Trabalho (OIT): a saúde mental dos trabalhadores deve ser tratada como prioridade. Ambientes marcados por estresse contínuo, assédio e insegurança ampliam riscos e afastamentos.

Saúde mental entra no centro da pauta 
O ambiente de trabalho também adoece emocionalmente. Ansiedade, depressão e burnout já figuram entre as principais causas de afastamento, refletindo um modelo de gestão baseado em pressão constante e metas abusivas.
Com base em dados recentes da Previdência Social, o cenário de adoecimento dos trabalhadores no Brasil se agravou em 2025. Foram registrados mais de 4,1 milhões de afastamentos por incapacidade temporária (auxílio-doença), o maior número dos últimos cinco anos. Desse total, cerca de 5,5% estão diretamente relacionados a acidentes de trabalho. Um dos dados mais alarmantes diz respeito à saúde mental: mais de 546 mil afastamentos foram motivados por transtornos mentais e comportamentais, evidenciando o avanço do adoecimento psíquico no ambiente laboral.
Outro ponto de atenção é o reconhecimento do burnout como um problema diretamente ligado ao trabalho. A síndrome, caracterizada pelo esgotamento físico e mental decorrente de estresse crônico no ambiente laboral, passou a ser reconhecida como doença ocupacional, podendo ser equiparada a acidente de trabalho mediante comprovação do nexo causal. Nesse cenário, ganha relevância a atualização da NR-1, que estabelece diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho e reforça a necessidade de identificação e gestão de riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais. A medida amplia a responsabilidade dos empregadores e fortalece a luta por ambientes laborais mais seguros e saudáveis.
A saúde mental é parte inseparável da segurança no trabalho.

Organização e denúncia são instrumentos de proteção
Diante desse cenário, a organização coletiva é essencial. A atuação do Sindicato e o fortalecimento das CIPAs são fundamentais para garantir o cumprimento das normas de segurança.
Entre as orientações à categoria estão:

  • Exigir a emissão da CAT: fundamental para garantir direitos e combater a subnotificação.
  • Exercer o direito de recusa: previsto em acordo coletivo e na legislação, permite interromper atividades diante de risco grave e iminente.
  • Denunciar irregularidades: situações de risco, falta de manutenção ou pressão indevida devem ser comunicadas ao Sindicato.

Memória, luta e responsabilidade
Neste 28 de abril, a homenagem às vítimas se transforma em compromisso com a vida. No Sistema Petrobrás, cada acidente reforça a urgência de mudanças estruturais e responsabilização.
Denunciar é um ato de proteção coletiva. A vida não tem preço — e a insegurança tem responsáveis. Uniforme jamais deve ser mortalha de trabalhador.

Fontes: Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab/MPT-OIT); Anuário Estatístico da Previdência Social; Ministério do Trabalho e Emprego; Organização Internacional do Trabalho.