Da Palestina à Petrobrás
Organizado pelo Núcleo de Formação Sindical do Sindipetro-LP, o seminário “Petróleo, Soberania e Luta Popular” reuniu, no sábado (8), no Clube 2004, em Santos, trabalhadores, dirigentes sindicais, pesquisadores e militantes para discutir imperialismo, neofascismo, Palestina, petróleo, privatizações e o papel estratégico da Petrobrás.
Ao longo do dia, os debates partiram da resistência dos povos submetidos a ocupações e intervenções imperialistas, com destaque para a Palestina, e chegaram ao Brasil e à disputa pelo petróleo, pré-sal, terras raras e outros recursos estratégicos. O eixo comum foi a compreensão de que soberania significa controlar o território e as riquezas nacionais e colocá-las a serviço da maioria da população.
Palestina, petróleo e imperialismo
A primeira mesa, “Organização dos trabalhadores contra o neofascismo e os ataques imperialistas”, contou com Cacau Pereira, Soraya Misleh, Marcelo Pereira e Felipe Nicolau.
Cacau Pereira destacou o avanço da extrema direita e a disputa entre grandes potências, ressaltando que a luta econômica dos sindicatos está ligada à luta política, especialmente diante da importância estratégica do petróleo, da energia, das terras raras e das novas tecnologias.
A jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh abordou a história da Nakba, da ocupação e da expulsão do povo palestino, relacionando a situação atual de Gaza e da Cisjordânia a um longo processo colonial. Também destacou a importância estratégica do Oriente Médio e afirmou que “resistência para o povo palestino é existência”, defendendo a organização e a solidariedade internacional.
Marcelo Pereira ampliou o debate para a América Latina, relacionando guerras, bloqueios, intervenções e privatizações à disputa econômica entre grandes potências. Também tratou das pressões externas sobre o Brasil e da necessidade de avaliar os projetos políticos a partir de seu compromisso com a soberania nacional e a defesa do patrimônio público.
Felipe Nicolau reforçou que o combate ao imperialismo e à extrema direita exige trabalhadores organizados e politizados, estabelecendo também relações entre a resistência palestina e os conflitos pela terra no Brasil.
Ao final da manhã, os debates convergiram para uma questão central: quem decide sobre a terra, a energia, a água, os minérios e a riqueza produzida pelos trabalhadores?
Soberania energética e reconstrução do Sistema Petrobrás
À tarde, a segunda mesa discutiu diretamente soberania energética, Petrobrás e os efeitos das privatizações. Participaram Eric Gil Dantas, Rosângela Buzanelli, Pedro Borborema e Fábio Mello, com abertura da diretora Stefhanie Merino.
O economista Eric Gil Dantas, do IBEPS, analisou o processo de privatização de ativos do Sistema Petrobrás, como a BR Distribuidora, Liquigás, refinarias e gasodutos. Segundo ele, a saída da empresa de diferentes etapas da cadeia reduziu sua capacidade de influenciar os preços dos combustíveis até o consumidor final.
Por isso, defendeu a retomada da Petrobrás na distribuição, ampliando a capacidade da estatal de influenciar o preço dos combustíveis e reduzir o poder das grandes distribuidoras privadas.
Rosângela Buzanelli, representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobrás, relatou o processo de desmonte da companhia e seus impactos sobre a integração, o planejamento e a capacidade de atuação da empresa. Também destacou a decisão do Conselho, em 2025, de aprovar o retorno da Petrobrás à distribuição.
Para Rosângela, a Petrobrás possui capacidade financeira, tecnológica e operacional para liderar projetos de energia, pesquisa, inovação e transição energética, funcionando como instrumento de industrialização, geração de empregos e desenvolvimento nacional.
Privatização também significa perda de empregos e conhecimento
Pedro Borborema, da Associação dos Ex-Funcionários da BR Distribuidora, abordou os impactos das privatizações sobre os trabalhadores. Segundo ele, cerca de cinco mil ex-empregados de empresas privatizadas foram prejudicados pelas vendas e desligamentos.
A discussão mostrou que a privatização não envolve apenas a mudança do controle acionário: ela também pode significar perda de empregos, direitos, conhecimento acumulado e capacidade de planejamento do Estado.
Riquezas nacionais e desenvolvimento tecnológico
O diretor licenciado do Sindipetro-LP Fábio Mello defendeu a soberania sobre o pré-sal, as terras raras, a Amazônia e a Amazônia Azul. Para ele, não basta impedir a entrega das riquezas nacionais: é preciso desenvolver no Brasil as cadeias produtivas capazes de transformá-las em indústria, tecnologia, emprego e renda.
O debate também abordou os grandes data centers das empresas de tecnologia. A questão colocada foi a necessidade de estabelecer condições para esses investimentos, garantindo geração de empregos qualificados, desenvolvimento tecnológico e proteção dos recursos naturais, especialmente energia e água.
A discussão reforçou que o Brasil não pode se limitar a fornecer minério, território, energia e água enquanto a parte mais valiosa da tecnologia e dos lucros permanece no exterior.
Quem fica com a riqueza produzida pela Petrobrás?
Durante o debate, Fábio Canté, diretor do Sindipetro-LP, questionou a composição acionária da Petrobrás e o peso dos investidores privados e estrangeiros.
Eric Gil destacou que, entre 2021 e 2024, a remuneração aos acionistas da Petrobrás foi, em média, seis vezes superior à das demais empresas brasileiras listadas em bolsa. A discussão colocou em evidência que defender uma Petrobrás pública também significa discutir quanto da riqueza produzida pela empresa é destinado aos investimentos e ao desenvolvimento do país e quanto é transferido aos acionistas.
Soberania é decidir para quem servem as riquezas
Da Palestina ao pré-sal, das terras raras ao gás de cozinha, o seminário mostrou que diferentes conflitos fazem parte de uma disputa maior: quem controla as riquezas e a serviço de quem elas são colocadas.
Para a categoria petroleira, defender a Petrobrás significa defender uma empresa capaz de produzir energia, gerar empregos, desenvolver tecnologia, fortalecer a indústria nacional e contribuir para preços de combustíveis compatíveis com as necessidades da população.
As novas disputas também envolvem minerais críticos, água, energia e tecnologias estratégicas. As riquezas mudam, mas permanece a mesma questão: serão utilizadas para desenvolver o país e melhorar a vida dos trabalhadores ou servirão principalmente aos interesses das grandes corporações e potências estrangeiras?
Ao promover o seminário, o Sindipetro-LP reafirmou que a ação sindical vai além da negociação de salários e benefícios. Organizar a categoria também significa formar trabalhadores para compreender e disputar os rumos políticos e econômicos que afetam seus empregos, direitos, condições de trabalho e o futuro da Petrobrás.
Da resistência do povo palestino à luta dos petroleiros brasileiros, soberania é o direito de decidir sobre o próprio futuro. Defender a Petrobrás pública é parte dessa luta: uma Petrobrás dos brasileiros, controlada pelo Estado e colocada a serviço do povo.
Assista a palestra completa:
Manhã
Com a participação de Cacau Pereira, Felipe Nicolau, Soraya Misleh e Marcelo Pereira.
Parte 2 - Tarde
Com a participação de Eric Gil, Rosângela Buzanelli Torres, Pedro Borborema e Fábio Mello. O momento foi dedicado ao aprofundamento das discussões sobre soberania energética, defesa da Petrobrás pública e os desafios da organização e da luta da classe trabalhadora.
