Greve segue produzindo conquistas: oito meses depois, a luta ainda reflete no bolso do trabalhador

2025

Foram 16 dias de mobilização, atravessando o Natal e chegando ao Ano Novo. A greve mostrou a força da categoria e arrancou conquistas que continuam produzindo efeitos práticos. Em setembro, novos reajustes entram em vigor, a segunda parcela do abono chega aos trabalhadores e direitos dos embarcados seguem sendo cobrados pelo Sindicato, enquanto a negociação da PLR 2026-2027 já está em curso.

Oito meses depois, a greve de 2025 continua presente no contracheque — e na luta da categoria. Iniciada em 15 de dezembro de 2025, a paralisação foi construída com forte participação da base e atingiu unidades estratégicas em todo o país. No Litoral Paulista, a mobilização teve 100% de adesão nas bases, alcançando refinaria, terminais, unidades de gás, termoelétrica, prédio administrativo e plataformas. A forte participação dos trabalhadores embarcados foi decisiva para ampliar a pressão sobre a Petrobrás e fortalecer a greve.

Foram 16 dias de enfrentamento e pressão sobre a gestão da Petrobrás em um momento decisivo da negociação do ACT 2025-2027. A mobilização obrigou a empresa a apresentar avanços e mostrou que, quando a categoria se organiza, sua força ultrapassa os limites das mesas de negociação. O movimento terminou, mas seus efeitos continuam.

Setembro: novos reajustes chegam ao contracheque
A partir de 1º de setembro, entra em vigor a segunda correção das tabelas prevista no ACT 2025-2027. O Salário Básico será reajustado pelo IPCA acumulado entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Já a tabela da RMNR e a Gratificação de Campo Terrestre de Produção terão, além da reposição da inflação, 0,5% de ganho real.

Como diversos adicionais são calculados sobre o Salário Básico, o reajuste também produz reflexos em outras parcelas da remuneração. Considerando os índices conhecidos até julho, com inflação acumulada próxima de 4,6%, a correção da RMNR e do Campo Terrestre deve ficar próxima de 5%. Os números definitivos dependem da divulgação do IPCA de agosto.

Benefícios reajustados pelo custo real
Vale-Refeição: será corrigido em setembro pela variação do item “Alimentação fora do domicílio" do IPCA. Com o acumulado conhecido até julho, o reajuste será de aproximadamente 5%, o que equivale a um aumento de aproximadamente R$ 105,00. 

Vale-Mercado: o benefício de R$ 400 mensais, pago desde janeiro de 2026 aos empregados em efetivo exercício, terá seu primeiro reajuste anual com base na inflação do item “Alimentação no domicílio”. Pelos índices conhecidos até julho, o valor chegaria a aproximadamente R$ 413,71.

O mesmo critério será aplicado ao complemento mensal de R$ 276,60, pago nas situações previstas no ACT aos empregados que recebem alimentação in natura subsidiada. A projeção, também antes do índice de agosto, é de R$ 286,08.

Vale-Ceia: o valor atual de R$ 1.006,91 será reajustado em setembro. Considerando os índices conhecidos até julho, a projeção é de R$ 1.041,43. O novo valor será utilizado no crédito do benefício realizado em dezembro.

Também em setembro será paga a segunda parcela do Abono ACT 2025-2027, previsto na Cláusula 128 do acordo, parágrafo 1º inciso II.
O benefício para este ano corresponde a 80% de uma remuneração, respeitando piso e teto da cláusula 128. Para efeito do cálculo desse abono, 100% de uma remuneração considera-se o valor da tabela de RMNR acrescida do ATS ou a Remuneração da Função Gratificada, conforme o caso.

A regra estabelece que o abono seja pago aos empregados em efetivo exercício em 1º de setembro de 2025. Excepcionalmente, também são contemplados os empregados admitidos a partir dessa data que estejam em efetivo exercício em 31 de dezembro de 2025, observadas as demais condições previstas na cláusula. A primeira parcela foi paga em março. Agora, a segunda chega ao bolso da categoria.

Direitos offshore precisam sair do papel
Para quem trabalha embarcado, o ACT também trouxe direitos que ainda precisam ser plenamente implementados. Um deles é o DSR sobre as horas extras relacionadas ao Dia do Desembarque, previsto na Cláusula 27.

Após cobrança do Sindipetro-LP, a Petrobrás reconheceu problemas na implantação do pagamento e informou que pretende concluir a adequação do sistema até dezembro de 2026, com pagamento retroativo dos valores devidos desde janeiro deste ano. O Sindicato segue acompanhando e cobrando para que o direito previsto no acordo apareça efetivamente na folha de pagamento.

Outro ponto pendente envolve trabalhadores que utilizaram milhas próprias para emitir ou remarcar passagens diante de alterações de desembarque. O ACT prevê o ressarcimento das despesas decorrentes dessas alterações, mas a situação das passagens adquiridas com milhas ainda não tem solução definitiva.  

Segundo o RH, a dificuldade está na exigência de comprovante de pagamento em nome do beneficiário, conforme os critérios utilizados para a prestação de contas. A empresa informou que irá aprofundar a análise para encontrar uma forma de garantir a rastreabilidade dessas operações e apresentar uma alternativa. Até o momento, porém, não há uma solução definitiva. O Sindicato seguirá cobrando para que o trabalhador não seja prejudicado por utilizar recursos próprios para resolver uma alteração provocada pela própria gestão da empresa.

O problema reembolso das passagens está longe de acabar porque desde a implementação tem gerado ainda mais problemas. O sistema disponibilizado pela empresa para que os trabalhadores solicitem o benefício tornou-se uma barreira quase intransponível, dificultando o acesso ao direito. Para piorar, o sistema apresenta respostas em inglês, criando ainda mais obstáculos para os trabalhadores.

A luta atual: PLR 2026-2027
Enquanto as conquistas do ACT continuam produzindo efeitos, uma nova negociação já está em andamento. O Sindipetro Litoral Paulista e a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) negociam com a Petrobrás o acordo de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) para 2026 e 2027. A defesa da categoria é por uma PLR que reconheça de forma justa e igualitária a participação dos trabalhadores nos resultados da empresa.

A Petrobrás vem registrando resultados expressivos, mas nenhum resultado existe sem o trabalho de quem mantém refinarias, terminais, plataformas, unidades de gás, prédios administrativos, termoelétricas e demais áreas da empresa em funcionamento. Pela sistemática em negociação, a PLR referente a 2026 terá adiantamento em janeiro de 2027, com posterior apuração e quitação conforme as regras que forem definidas no acordo. A negociação continua.

O peso econômico das conquistas
Somados os principais efeitos econômicos do ACT — reajustes salariais e de benefícios, Vale-Mercado, Vale-Ceia e abono —, o impacto pode representar cerca de 42% de uma remuneração anual nas faixas salariais até R$ 5 mil, por exemplo.

É importante informar que isso não significa um reajuste salarial de 42%. O cálculo reúne parcelas de naturezas diferentes: reajustes permanentes, benefícios mensais e pagamentos extraordinários. Ainda assim, a conta ajuda a dimensionar o peso econômico das conquistas obtidas na negociação.

E ela não inclui a PLR 2026, que ainda está em negociação, nem o DSR retroativo dos trabalhadores offshore ou a solução para os ressarcimentos de passagens adquiridas com milhas.

A greve terminou, mas a luta continua
O que hoje aparece no contracheque começou muito antes: nas assembleias, nos atos, nos piquetes, na mobilização das unidades e na decisão da categoria de enfrentar a empresa. Vale-Mercado, Vale-Ceia, reajustes diferenciados, ganho real, abono e novos direitos não surgiram espontaneamente. Foram resultado de negociação e pressão coletiva.

E há uma diferença que nenhum contracheque consegue pagar: quem esteve na greve sabe de onde vieram essas conquistas. Os que ficaram de fora também vão receber, porque os direitos conquistados são coletivos. Mas o sabor é outro para quem participou dos 16 dias de luta, enfrentou pressões, atravessou o Natal e o Ano Novo e ajudou a arrancar esses resultados da empresa. Esses trabalhadores recebem de cabeça erguida, porque sabem que fizeram a sua parte. Quem lutou pode olhar para o contracheque e dizer: eu estava lá.

A greve de 2025 durou 16 dias. A categoria atravessou o Natal e chegou ao Ano Novo em mobilização. O movimento mostrou que trabalhadores organizados são capazes de pressionar uma das maiores empresas do país e arrancar avanços. Mas conquista escrita no ACT precisa ser cumprida. Por isso, o papel do Sindicato continua sendo fiscalizar a aplicação do acordo, cobrar o que ainda não foi implementado e organizar a categoria para as próximas batalhas.