Pesquisa aponta riscos psicossociais no trabalho offshore e caminhos para melhorar a vida dos embarcados

Com apoio do Sindipetro-LP

O trabalho offshore é uma atividade essencial para o país, mas também uma das mais exigentes para quem vive a rotina de embarque. Longe da família e da vida em terra, trabalhadores e trabalhadoras convivem com pressão constante, riscos operacionais, regras rígidas, isolamento e pouca privacidade.

Essa realidade foi tema da dissertação de mestrado da psicóloga e pesquisadora Ilva Anunciação, intitulada Condições psicológicas, fatores de risco psicossocial e qualidade de vida em trabalhadores offshore. O estudo foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no campus Baixada Santista, sob orientação da Profa. Dra. Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro e coorientação do Prof. Dr. Rodolfo Eduardo Scachetti.

A pesquisa ouviu 50 trabalhadores offshore e contou com o apoio do Sindipetro-LP na divulgação junto à categoria.

O estudo buscou compreender como os embarcados percebem sua saúde mental, sua qualidade de vida e os fatores de risco psicossocial presentes no ambiente de trabalho.

Um dos principais resultados foi a identificação das chamadas demandas de tarefa como o fator de risco mais relevante. Em outras palavras, ritmo intenso de trabalho, pressão por resultados, necessidade de atenção constante, responsabilidade operacional e exposição a riscos aparecem como elementos centrais de desgaste.

Segundo a pesquisadora, o trabalho offshore envolve operações complexas em cenários de elevado risco, nos quais falhas podem ter consequências importantes para a segurança das pessoas, do meio ambiente e da própria operação.

A pesquisa também reforça uma questão central para a categoria: saúde mental não pode ser tratada apenas como problema individual. A organização do trabalho, as jornadas, a gestão das demandas, o efetivo disponível e as condições de permanência embarcada influenciam diretamente o bem-estar dos trabalhadores.

Apesar dos riscos identificados, os participantes apresentaram avaliações positivas em aspectos ligados à realização profissional e às relações interpessoais. Para a pesquisadora, isso demonstra que o ambiente offshore reúne, ao mesmo tempo, fatores de satisfação e fatores de desgaste.

O domínio mais comprometido foi o físico. Sono, descanso, conforto e recuperação apareceram como pontos críticos da qualidade de vida dos trabalhadores. O estudo reforça que a saúde mental também depende de condições concretas de trabalho, como qualidade das cabines, alimentação adequada, escalas equilibradas e tempo efetivo de recuperação.

A dissertação também utiliza o conceito de “instituições totais”, do sociólogo Erving Goffman, para refletir sobre ambientes em que trabalho, descanso e convivência acontecem no mesmo espaço. No embarque, o trabalhador permanece integralmente inserido no ambiente laboral, o que pode impactar sua privacidade, suas relações familiares e sua adaptação emocional.

Outro dado relevante é que os trabalhadores mais jovens apresentaram maior percepção dos riscos relacionados às exigências do trabalho, enquanto os mais experientes demonstraram percepção mais positiva sobre as relações interpessoais e o sentido da atividade. Isso mostra a importância de políticas de acolhimento, orientação e acompanhamento, especialmente para quem está ingressando no regime offshore.

O que pode mudar
Para a pesquisadora, os riscos psicossociais devem ser enfrentados na origem, por meio de mudanças na organização do trabalho. Programas de acolhimento para novos embarcados, planejamento adequado das escalas e gestão das demandas são algumas das medidas apontadas para reduzir a sobrecarga e melhorar a adaptação ao regime offshore.

O estudo também destaca a importância de investir em condições adequadas de permanência embarcada, incluindo descanso, conforto, alimentação, espaços de convivência, privacidade e comunicação com a família.

Para o Sindipetro-LP, a pesquisa confirma aquilo que a categoria offshore conhece na prática: o sofrimento mental não nasce do nada, nem pode ser tratado como fraqueza individual. Ele está diretamente ligado à forma como o trabalho é organizado, ao efetivo disponível, às escalas, à pressão por produtividade, às jornadas intensas, ao descanso insuficiente, às condições de permanência embarcada e à qualidade da gestão.

Por isso, os riscos psicossociais precisam ser tratados com a mesma seriedade dedicada aos riscos físicos, químicos, ergonômicos e de acidentes. Não basta oferecer atendimento psicológico depois que o trabalhador adoece. É preciso prevenir, ouvir a categoria e atuar sobre as causas do desgaste.

Para o Sindipetro-LP, os dados levantados pela pesquisa serão usados como parâmetro para fortalecer a luta pela melhoria do meio ambiente de trabalho da categoria offshore. O estudo oferece elementos concretos para cobrar das empresas medidas de prevenção, revisão da organização do trabalho, efetivo adequado, melhores condições de descanso, acolhimento aos novos embarcados, espaços de convivência, privacidade e comunicação com as famílias.

Embora os resultados não possam ser generalizados para todo o setor, o estudo traz elementos importantes para ampliar o debate sobre saúde, segurança e qualidade de vida nas plataformas.

O trabalho também foi acompanhado de perto pelo setor de Saúde Coletiva do Sindipetro-LP, que apoiou sua divulgação junto à categoria e esteve presente na apresentação da pesquisa. Na ocasião, o Sindicato destacou a importância de ampliar futuras investigações sobre a realidade dos trabalhadores embarcados das empresas terceirizadas, que muitas vezes enfrentam condições menos amparadas, maior exposição a acidentes, relatos de subnotificação, jornadas desgastantes e menores períodos de descanso.

Para o Sindipetro-LP, a terceirização no trabalho offshore precisa ser mais estudada e debatida, para que sindicatos, órgãos de fiscalização e auditores do trabalho possam atuar com mais força na defesa desses trabalhadores. Compreender essa realidade é fundamental para enfrentar desigualdades dentro das próprias plataformas e garantir melhores condições de saúde, segurança e proteção para toda a força de trabalho embarcada.

A principal conclusão é que o trabalho offshore combina orgulho profissional, identidade de classe e companheirismo com isolamento, pressão e desgaste físico e emocional. Melhorar a vida dos embarcados exige reconhecer essas particularidades, ouvir quem vive essa rotina e cobrar das empresas medidas concretas.

O Sindipetro-LP utilizará os dados da pesquisa como mais um instrumento de luta pela melhoria do meio ambiente de trabalho da categoria offshore, com foco na prevenção, na organização do trabalho e na defesa da saúde física e mental dos trabalhadores e trabalhadoras.